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    04 de Janeiro 2016
  Mudanças climáticas: previsões alarmantes para a Amazônia/b>
  Com base em dados atuais, cientistas preveem cenários catastróficos como a savanização da floresta
  Conhecida pela biodiversidade e inúmeras fontes de água, o mundo todo olha para a Amazônia como um oásis em meio a tanto concreto e asfalto do mundo moderno. Entretanto, o uso desenfreado de recursos naturais tem causado mudanças climáticas alarmantes. Modelos científicos preveem um aumento de 4°C na região e, se nada for feito, a Amazônia de 2080 terá um futuro catástrofico.
  Quatro graus célsius podem parecer pouco, mas essa temperatura é o começo de uma série de reações globais preocupantes. De 1880 a 1980, o planeta teve um aumento da temperatura média de 0,75ºC. Esse aumento foi o suficiente para que muitas das catástrofes climáticas se tornassem mais intensas. O relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) aponta um cenário de secas e cheias mais potentes e frequentes para a Amazônia.
  A história das mudanças climáticas
  O cientista britânico John Tyndall descobriu em 1859 que alguns gases absorvem pouco calor em forma de raios solares e outros bem mais. Nos seus experimentos, ele percebeu que os gases que mais acumulavam calor eram metano (CH4), dióxido de carbono (CO2), e vapor de água. De acordo com ele, graças ao vapor da água na atmosfera o planeta conseguia manter sua temperatura.
  Graças a essa descoberta, muito tempo depois foi possível descobrir as causas do aumento da temperatura no planeta. O feito aconteceu em 23 de junho de 1988, durante uma comissão organizada pelo senado dos Estados Unidos, que convocou vários cientistas para tentar explicar uma onda de calor que assolava o país na época.
  James Hansen, climatólogo-chefe da Nasa, na época, explicou que os gases produzidos pela combustão de carvão, gás e petróleo [desde as épocas pré-industriais da humanidade] têm criado uma barreira para os raios de Sol refletidos pelo planeta terra. Dessa maneira, o calor que deveria voltar para o espaço é retido na nossa atmosfera, aumentando a temperatura do planeta.
  Outros cientistas já tinham se preocupado com esse aumento da temperatura e os gases do efeito estufa, mas Hansen foi o primeiro a demonstrar com clareza o processo do fenômeno físico chamado “efeito estufa”.
  Em novembro de 1988, logo após a apresentação do relatório de James Hansen no Congresso Americano, a Organização das Nações Unidas apoiou a criação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas. O IPCC tem como objetivo “analisar e avaliar a informação científica, técnica e socioeconômica mais recentes produzidas no mundo para a compreensão das alterações climáticas”.
  Milhares de cientistas do mundo trabalham voluntariamente no IPCC para oferecer e apresentar dados relevantes que podem ser utilizados para a tomada de decisões governamentais e privadas em questões climáticas.
  Três possíveis futuros da humanidade
  De acordo com o o IPCC existem três grandes possíveis cenários para o futuro do Mundo. O primeiro deles é um cenário de crescimento econômico e populacional. O consumo e o crescimento populacional vão fazer com que cada vez mais gases do efeito estufa sejam jogados na atmosfera.
  O segundo cenário é mais otimista. Com desenvolvimento econômico mais rápido, o crescimento populacionalse torna igual em todo o mundo, até que a população global alcance um pico no meio do século e depois declina. Melhorias tecnológicas ocorrem para todas as fontes energéticas. Esse é o caminho entre economia e meio ambiente.
  O melhor cenário é o terceiro onde o crescimento econômico e populacional diminui para o cumprimento de metas ambientais. Junto a isso, tecnologias energéticas mais eficientes fazem o mundo caminhar para um quadro de maior estabilidade climática.
  Imagine agora esses três cenários possíveis para o mundo e para Amazônia. Em qual deles você iria se basear na hora de planejar sua vida, seus negócios, seu trabalho? Para o cientista Philip Fearnside, o meio termo não é a melhor maneira de governos e pessoas planejarem o futuro.
  O Ph.D Philip Fearnside é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e ganhador do prêmio Nobel da Paz. Ele trabalhou toda sua vida no estudo da Amazônia e mudanças climáticas. Para o cientista, é preferível se precaver contra o pior.
  “Se alguém que mora em um prédio de apartamentos perguntasse a um engenheiro se o edifício poderia ruir. Ele ficaria satisfeito com uma resposta de que é “provável” que o prédio permaneça em pé? Isso pode significar que há uma chance de 51% de que o edifício se mantenha em pé e uma chance de 49% de que caia ao chão. Certamente os moradores não se satisfariam com a segurança de apenas mais de 50%”, disse o pesquisador Philip Fearnside.
 
  O pior dos cenários
  O que aconteceria no pior dos cenários? Bom, nada muito agradável. A começar pelo aumento da temperatura. De acordo com o relatório do IPCC dentro do pior cenário, a região amazônica vai ter um aumento de 4ºC. Pode parecer pouco, mas essa temperatura é o começo de uma série de reações catastróficas.
  As mundanças climáticas aumentam o número de ocorrência de situações extremas na região. Isso significa cheias e secas mais intensas. Longos períodos de alta temperatura e poucas chuvas matam árvores de sede. Enchentes também matam árvores que não são nativas de áreas de várzea e que são alcançadas pela água.
  Outro fator previsto no relatório é o aumento da mortalidade de plantas e florestas causadas pelo fogo. Com quadros de calor extremos a suscetibilidade a incêndios na região é maior. O aumento no número de queimadas, a morte de árvores em períodos de secas mais prolongadas e cheias mais intensas criam um ciclo de destruição que tem como resultado final: a diminuição da área de floresta da Amazônia.
  As árvores queimadas e em processo de decomposição produzem dióxido de carbono e metano, os dois principais gases causadores do efeito estufa. Isso cria um processo cíclico onde mais calor produz mais gases do efeito estufa, que gera mais calor no planeta.
  Savanização da Amazônia
  Em 2007, projeções do Centro Hadley, um instituto britânico de pesquisa do clima, apontou para um processo extremo de savanização da Amazônia. De acordo com a projeção na época haveria na região um clima mais seco e quente, típico do período em que ocorre o El Niño. Um clima do tipo “El Niño” frequente na região faria com que a floresta amazônica fosse substituída por uma vegetação do tipo savana até o final do século 21.
  Felizmente, a projeção do Centro Hadley foi reavaliada e os fatores de savanização apontaram um cenário não tão catastrófico. Mas isso não pode ser motivo de comemoração. De acordo com Fearnside ainda é bastante preocupante o cenário de extremos pelo qual a floresta ainda vai passar. “Esses momentos de muita chuva e muita seca que os centros ainda projetam é que podem realmente prejudicar a floresta”.
  Os peixes
  O aumento da temperatura também pode ser sentida pelos animais. A pesquisa “Crescimento do tambaqui em cenários de mudanças climáticas” é um projeto do Centro de Estudos de Adaptações da Biota Aquática da Amazônia (Adapta) que coloca os peixes numa situação aproximada ao cenário proposto pela IPCC.
  Os peixes foram colocados em um ambiente com temperatura mais elevada e concentrações maiores de dióxido de carbono. Para se adaptar a esse clima, os tambaquis ficaram menores, afetando diretamente o hormônio do crescimento da espécie. Peixes menores poderiam afetar negativamente as populações ribeirinhas, que tem esses peixes como base da alimentação.
  O que é possível fazer
  As pesquisas científicas projetam para o planeta esses três possíveis futuros. O aquecimento global é sobre o ser humano e a própria sobrevivência. Philip Fearnside afirma que o Brasil tem feito acordos de diminuição do desmatamento ilegal, e isso é ótimo. Mas os desmatamentos legais também são parte do problemas, quer queira ou não. Para ele, o ideal é que o desenvolvimento venha junto com práticas ambientais. “O pior dos cenários precisa ser levado em conta por causa do fator de risco, mas isso significa que não possa ser mudado.”
  O ser humano chegou aonde está devido ao consumo e combustão em excesso de fontes de carbono como carvão, petróleo, árvores e gás. Basta que pessoas e governos de todo o mundo tomem ações, sejam elas individuais ou não, para que esse pior cenário não aconteça. Mas no final, a pergunta que fica é: a Amazônia terá um futuro?
  Por: Isaac Guerreiro
Fonte: Portal Amazônia
  23 de Junho 2015
  Líder Munduruku denuncia usinas durante reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU
  Na próxima quarta-feira, dia 24, às 16:30h (11:30h Brasília), Ademir Kaba Munduruku, representante das organizações Munduruku do Alto Tapajós, vai participar em Genebra de evento paralelo à 29a Reunião do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (UNHRC) sobre o direito dos povos indígenas a processos de consulta livre, prévia e informada (CLPI) no planejamento e licenciamento de hidrelétricas na Amazônia, com destaque para as bacias do Tapajós e do Xingu. Ademir será acompanhado pelo Procurador da República Felício Pontes Jr., do Ministério Público Federal no Pará, coautor de diversas ações civis públicas sobre violações de direitos humanos e legislação ambiental nos casos de Belo Monte e de barragens na bacia do Tapajós.
  Além do evento paralelo da ONU em Genebra, aberto ao público e a autoridades internacionais, Ademir se reunirá em Paris, entre segunda (22) e terça (23), com o diretor de energia da ex-estatal EDF (Electricité de France, hoje de economia mista com 70% das ações na mão do governo), Antoine Cahuzac, o Conselho Nacional de Direitos Humanos da França, e deputados e senadores franceses, para denunciar a participação da empresa nos impactos dos projetos hidrelétricos na bacia Teles Pires/Tapajós. A EDF detém 51% das ações do consórcio construtor da usina de Sinop (Teles Pires), no Mato Grosso, e é a única empresa privada internacional no Grupo de Estudos Tapajós – GET, que avalia a de viabilidade da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós (Tapajós, PA).
  A agenda da liderança Munduruku também inclui encontros com os assistentes da relatora especial da ONU sobre independência dos juízes (para denunciar a aplicação sistemática do mecanismo de Suspensão de Segurança a casos de judicialização de crimes contra comunidades e o meio ambiente na construção de usinas), do relator especial da ONU sobre agua, do relator especial sobre meio ambiente e com o grupo de trabalho sobre empresas transnacionais.
  Direito à Consulta
  Em 30 de janeiro deste ano, os Munduruku e ribeirinhos do assentamento Montanha e Mangabal, também ameaçados pela complexo hidrelétrico do Tapajós, entregaram ao ministro Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral da Presidência da República, protocolos de consultas elaborados pelos dois grupos como base vinculante do processo de oitiva, determinado pela Justiça (leia os protocolos aqui e aqui). Desde então, não houve nenhuma manifestação por parte do governo sobre o processo.
  A obrigação de que a Consulta Prévia fosse realizada pelo governo já havia sido determinada anteriormente pelo STF, mas no dia 15 deste mês a Justiça Federal de Itaituba confirmou em sentença que o governo federal está proibido de licenciar a usina de São Luiz do Tapajós sem antes realizar a consulta prévia, livre e informada conforme prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
  Para reforçar a pressão sobre o governo brasileiro, um grupo de 62 organizações e movimentos nacionais e internacionais protocolou na ONU, em 22 de maio, um documento que denuncia os desrespeitos às legislações nacionais, à Convenção 169 da OIT e aos direitos humanos dos ameaçados e atingidos pelas autoridades brasileiras.
  22 de Outubro 2014
  Imazon: No mês de setembro desmatamento da Amazônia aumentou 290% em relação ao ano passado
  Segundo os dados do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) divulgados no domingo (19) a Amazônia Legal perdeu 402 quilômetros quadrados de florestas no mês de setembro de 2014. Isso representa um aumento de 290% em relação ao mesmo mês em 2013, quando o desmatamento somou 103 quilômetros quadrados.
  Rondônia foi o estado que mais desmatou (33%), seguido do Pará (23%), Mato Grosso (18%) e Amazonas (12%), Acre (10%), Roraima (4%) e Tocantins (1%). Segundo o Imazon foi possível monitorar 93% da área florestal na Amazônia Legal enquanto que em setembro de 2013 o monitoramento cobriu uma área menor (79%) do território.
  As florestas degradadas (quando a floresta não é completamente suprimida) somaram 624 quilômetros quadrados em setembro de 2014. Em relação a setembro de 2013 houve um aumento de 3.797%, quando a degradação florestal somou 16 quilômetros quadrados.
  Os dados obtidos pelo SAD são feitos pelo Imazon que monitora toda a Amazônia Legal, com exceção do Maranhão. Os dados não são considerados oficias pelo governo que utiliza o monitoramento mensal realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Esse mês, porém, o governo decidiu adiar a divulgar dos dados oficias para depois das eleições.
  Fonte: Amazônia.org.br
  05 de Julho 2013
  Dilma, põe mais essa na conta
  Desmatamento na Amazônia volta a crescer: país perdeu 46,5 mil ha de floresta em maio de 2013 – mais de 400% em comparação com o mesmo período do ano passado
  “Aqui se faz, aqui se paga.” A parceria com a bancada ruralista começa a passar uma amarga fatura para o governo Dilma: o desmatamento da floresta amazônica, que demorou tanto para começar a ser controlado, mostra sinais tão evidentes de subida que nem o governo consegue mais esconder.
  Em coletiva de imprensa na manhã de hoje, o Ibama anunciou uma tendência de aumento de desmatamento que não se via mais no Brasil. Segundo dados do Deter, em maio de 2013 a Amazônia perdeu 46,5 mil hectares de floresta – quase a área da cidade de Porto Alegre. Isso representa um aumento de mais de 400% em comparação com o mesmo período de 2012.
  Isso tudo com uma cobertura de nuvens de 42% sobre a Amazônia Legal, o que prejudica a detecção de focos de desmatamento pelos satélites. E mais: o Deter só identifica corte raso em áreas médias e grandes – as pequenas e fragmentadas, que se tornaram frequentes para justamente sumirem aos olhos do satélite, não entram nessa conta.
  Luciano Evaristo, diretor de proteção ambiental do Ibama, disse recentemente estar confiante em zerar a tendência de desmatamento ainda neste ano. Mas as informações divulgadas hoje mostram que o país segue o caminho contrário.
  “Os números são preocupantes, mas lamentavelmente previsíveis”, diz Kenzo Jucá, da campanha Amazônia do Greenpeace. “O governo Dilma tem sido conivente com o desmatamento. Cedeu aos ruralistas e, em nome de um modelo atrasado e predador de desenvolvimento, avança sobre unidades de conservação e territórios indígenas. Agora chegou a fatura.”
  É de notar que, na coletiva de hoje, apenas o Ibama estava presente, enquanto nas anteriores, quando havia queda ou leve aumento, um circo com ministros de Estado era montado – hoje nem Izabella Teixeira, ministra do Meio Ambiente, deu as caras. Era o momento para o governo mostrar que tem, em suas prioridades, atacar o problema e acabar com essa chaga ambiental.
  Mas, pelo visto, em vez de zerar o desmatamento na Amazônia, e mostrar para o mundo pelo menos um feito positivo de seu governo, Dilma prefere entregar o futuro da floresta e dos brasileiros para quem tem motosserra no lugar de mãos. No acumulado de agosto de 2012 a maio de 2013, o país perdeu 233,8 mil hectaresde floresta – um aumento de 35% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
  Só cresce
  A pressão não poupa nem unidades de conservação (UCs) e terras indígenas (TIs), que são alvo atual dos ruralistas. Em maio, o Deter viu 54 mil hectares de florestas desmatadas em Ucs e 8,9 mil hectares em Tis. A Flona Jamaxim, no Pará, foi a unidade de conservação mais desmatada no mês (perdeu 28,4 mil hectares), enquanto que a TI Maraiwatsede, no Mato Grsso, teve 8,8 mil hectares de florestas derrubadas.
  Os Estados campeões do desmatamento em maio foram Mato Grosso, com 27,7 mil hectares, seguido de Pará (13,4 mil), Amazonas (3,3 mil), Tocantins (900), Rondônia (770) e Maranhão (440).
  O Ibama aplicou R$ 1,7 bilhão em multas no período de agosto a maio deste ano e embargou 236 mil hectares da áreas com desmatamento ilegal.
  Fonte: Amigos da Terra
  24 de Junho 2013
  Sob pressão, governo suspende estudos de barragens no Rio Tapajós
  Pressionado por dois meses de enfrentamento e resistência dos indígenas Munduruku, o governo federal suspendeu as pesquisas da região do rio Tapajós para a construção de hidrelétricas. O anúncio foi feito durante reunião em praça pública no final da tarde deste domingo, 23, em Jacareacanga, extremo oeste do Pará. Os pesquisadores que estavam em área indígena deixaram a cidade.
  “A Funai e o governo federal como um todo está suspendendo qualquer pesquisa que estiver sendo feita aqui na região de vocês”, afirmou a assessora da presidência da Fundação Nacional do Índio Lucia Alberg, apesar do ministro Gilberto Carvalho ter anunciado publicamente que não suspenderia nem obras, nem estudos.
  “Estamos nos sentindo muito felizes”, aponta o chefe dos guerreiros Paygomuyatpu Munduruku. “Ela [Funai] ainda não nos deu nenhuma prova disso, estamos esperando uma prova, mas estamos muito satisfeitos com o que ela disse”. Em maio e junho, os indígenas Munduruku realizaram um sem número de ações exigindo a suspensão das obras e estudos de barragens nos rios Tapajós e Teles Pires, onde vivem 13 mil pessoas do povo Munduruku.
  Em maio, depois de uma assembleia que reuniu mais de 200 mulheres, caciques, lideranças e guerreiros, os Munduruku marcharam pelas ruas de Jacareacanga e juntaram-se a outros indígenas da bacia do Tapajós e do médio Xingu. Realizaram duas ocupações que paralisaram as obras da usina hidrelétrica Belo Monte por 17 dias, viajaram à capital federal, onde realizaram uma marcha, ocuparam a sede da Funai e fizeram protestos no Ministério de Minas e Energia e no Palácio do Planalto. Na última sexta-feira, um grupo de 40 guerreiros expulsou cerca de 25 pesquisadores (e deteve três deles) da empresa Concremat, prestadora de serviços do Grupo de Estudos Tapajós, consórcio composto por Camargo Correia, GDF Suez e Eletrobras, entre outros.
  Neste contexto, os Munduruku sofreram um processo de criminalização, difamação e repressão por parte do governo federal. Notas públicas, declarações à imprensa e processos judiciais acusavam os indígenas de criminosos e mentirosos, questionando a legitimidade das lideranças Munduruku, que entraram com interpelação criminal contra declarações do ministro Gilberto Carvalho.
  Pesquisadores
  “Nós liberamos os pesquisadores. A gente não quer mais vê-los aqui”, explica a liderança Maria Leusa Kabá. “Se eles voltarem, nós vamos tirar a cabeça dos pesquisadores. Nós somos guerreiros. Nossos guerreiros antigos são conhecidos por serem cortadores de cabeças. Nós não esquecemos nosso passado”, afirma Leusa.
  “Vamos continuar na nossa luta. A gente não quer que eles [estudos] sejam suspensos. Nós queremos que os estudos e as obras sejam cancelados. A suspensão é uma vitória parcial”, conclui Paygomuyatpu.
  Fonte: Movimento Xingu Vivo Para Sempre
  01 de Julho 2011
  Hidrelétricas na Amazônia não produzirão energia limpa
  O governo brasileiro acaba de dar luz verde à construção da terceira maior central hidrelétrica do mundo, no meio da Amazônia. Porém, o controvertido projeto Aproveitamento Hidroelétrica (AHE) Belo Monte não produzirá "energia barata e limpa" como se diz oficialmente.
  Foi o que afirmou na Suíça a ambientalista brasileira Telma Monteiro.
  “Ao contrario, causará impactos sociais e ambientais que jamais poderão ser mitigados ou compensados”, adverte Telma Monteiro, ambientalista brasileira que participou da discussão A fome de crescimento do Brasil coloca em risco a sobrevivência da Amazônia e dos povos indígenas? As discussões ocorreram em Basileia, Zurique e Berna.
  Com Belo Monte pretende-se produzir 11.233 MW de energia elétrica com as águas do rio Xingu, afluente do Amazonas. Ás águas serão represadas em dois lagos artificiais com superfície de 668 Km2, equivalente ao lago suíço de Constança. Será a maior hidrelétrica em território nacional, já que Itaipu é binacional.
  Segundo o governo brasileiro, 20 mil pessoas serão reinstaladas em Altamira. “Se calculamos os danos, ignorados nos processos, de expropriação e privatização, não será possível pagar a fatura de eletricidade”, afirma Telma Monteira, convidada a vir à Suíça pela Associação para os Povos Ameaçados (APA).
  A ativista explica que 50% da bacia hidrográfica do Xingu fica no estado do Pará e 50% em Mato Grosso. “Cerca de 80% das águas serão desviadas por um canal artificial estreito para uma represa, o que significará que o curso d’água será limitado em uma distância de 100 km em Volta Grande, onde se encontra o grande arco do rio Xingu”.
  Ser humano e ecossistema afetados
  Trata-se de um projeto insano, insiste Monteiro. “Porque o Xingu é um rio estacional e alguns meses tem pouca água. Enquanto o trecho de 100 km estiver seco quatro meses, outra parte estará sempre inundada”.
  Especialistas concordam que Belo Monte afetará a dinâmica do ecossistema da região, sem contar que a estacionalidade do rio impedirá a produção da energia calculada.
  O projeto também provoca conflitos porque algumas comunidades estão a favor e outras contra. “Esses grupos são pressionados, manipulados e instrumentalizados pelas construtoras em uma situação complexa”, lamenta a ambientalista.
  “Organizações brasileiras já apresentaram o problema da violação dos direitos humanos das populações indígenas à OEA, à Comissão Interamericana dos Direitos Humanos e à ONU”, explica Telma Monteiro.
  Mais usinas na Amazônia
  De acordo com Monteiro, os projetos hidreléctricos são parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). “O Ministério das Minas e Energia acaba de apresentar o Plano Decenal de Energia: somente entre 2016 e 2020 serão construídas dez usinas na Amazônia, principalmente em terras indígenas e em rios importantes como Tapajós e Jamanxim, no Pará”.
  A FUNAI, Fundação Nacional do Índio, declarou que Belo Monte era uma ameaça por está em uma região vulnerável, cercada por territórios indígenas: a principal represa está a menos de 70 km, assinala Monteiro.
  Ela afirma que o licenciamento de Belo Monte foi repleto de irregularidades. Em 2000, quando se decidiu pela viabilidade de Belo Monte, o Ministério Público começou a atuar contra essas irregularidades.
  Inicialmente, Belo Monte custaria 19 bilhões de reais; depois falou-se em 25 bilhões, 30 e agora 35 bilhões, dos quais 80% será financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDS).
  Brasil tem problema com os índios
  Na discussão em Berna, Christoph Wiedmer, diretor da seção suíça da Associação para os Povos Ameaçados ( APA) disse que a autorização de construir do governo brasileiro “é contrária à exigência expressa na Declaração de Direitos dos Povos Indígenas de consentimento livre, informado e prévio no processo decisório”.
  A APA suíça, juntamente com associações similares da Alemanha, Áustria, Itália e a Associação para os Povos Ameados na ONU lançam um apelo ao governo brasileiro para a suspensão de Belo Monte.
  Em carta à presidente Dilma Rousseff, as associações lembram que a Declaração de Direitos dos Povos Indígenas da ONU exige que, antes do início de qualquer projeto que possa ter impacto, deve ser obtido o consentimento dos povos direta ou indiretamente afetados.
  “Até este momento, porém, tem feito audiências somente com alguns dos povos indígenas afetados”.
  Segundo a APA, embora o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis tenha encontrado apenas cinco dos 40 requisitos de compatibilidade ambiental e social necessários, o governo brasileiro aprova a construção.
  Além disso, “pressiona os críticos do projeto: a FUNAI negou ao representante indígena Azelene Kaingan uma permissão para assistir ao Fórum Permanente para Assuntos Indígenas, em Nova York. O consórcio Norte Energia, responsável pela construção, tentou retirar do Ministério Público Federal a queixa feita pelo procurador Felício Pontes”.
  Para a APA, Belo Monte “é uma oportunidade para o Brasil provar sua capacidade de desenvolvimento com respeito ao meio ambiente e aos direitos humanos”.
  Projetos em outros países
  Segundo Telma Monteiro, 80% da energia no Brasil provém das hidrelétricas. “Temos três reatores nucleares e o governo pretende construir mais quatro no nordeste. No entanto, está previsto apenas um aumento de 1,5% de energia eólica até 2015 e 3% até 2030”. A construção de usinas elétricas na Amazônia não se limita ao território brasileiro. Empresas brasileiras têm outros projetos no Peru (Inambari) que já está em processo de licitação, e na Guiana.
  Todos são financiados pelo BNDS e são parte do Planejamento Energético Brasileiro, “que não corresponde à demanda do mercado, apenas cria oferta. Parte da ideia de um grande crescimento, mas não melhora a tecnologia nem a economia de energia. Só na transmissão perde-se 20% da energia, quantidade que corresponderia à produção de uma usina da dimensão de Belo Monte”, afirma Monteiro.
  A ativista falo una Suíça que está convencida das vantagens de outras formas de produzir energia. “Segundo o Instituto Nacional da Propriedade Intelectual, o vento da costa brasileira pode produzir 60% da energia que o Brasil necessita. Não nos opomos ao crescimento e ao desenvolvimento, desde que seja sustentável”, conclui.
  Fonte: Swissinfo (Amigos da Terra)
  04 de Junho 2011
  Ibama concede licença para Belo Monte
  O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) concedeu hoje (1) a licença de instalação para a usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA). A usina terá potência instalada de 11.200 megawatts (MW) e custo estimado em R$ 27 bilhões, sob responsabilidade do consórcio Norte Energia.
  O documento é assinado pelo presidente do Ibama, Curt Trennepohl. A licença é polêmica, pois nos últimos meses foram divulgados pareceres técnicos do Ibama e da Fundação Nacional do Índio (Funai) não recomendando a emissão.
  Belo Monte enfrenta forte resistência de movimentos sociais e ambientalistas, que questionam os impactos da usina e o não cumprimento das condicionantes impostas pelo Ibama na licença prévia. Em maio, o Ministério Público Federal divulgou nota dizendo que a emissão da licença sem o cumprimento das condicionantes seria irregular.
  A usina também enfrenta resistência dos povos indígenas. O reservatório de Belo Monte não deve alagar terras indígenas, porém secará um grande trecho do rio Xingu em território dos índios.
  Em nota divulgada à imprensa, a Norte Energia argumenta que considerou "todos os aspectos socioambientais relacionados à construção da UHE Belo Monte e manteve interlocução permanente com as comunidades diretamente envolvidas com o empreendimento, destacando ainda a interlocução com as comunidades indígenas que vivem próximas as obras, sempre em conjunto com a Funai".
  Condicionantes
  A licença emitida hoje cancela a licença de instalação parcial, mas mantém a autorização para supressão de vegetação (desmatamento). O Ibama também apresenta novas condicionantes, mas não fica claro no documento se as condicionantes anteriores foram cumpridas ou desconsideradas.
  As condicionantes estipulam prazos para que a Norte Energia apresente estudos sobre a qualidade da água, monitoramento dos sedimentos, e faça uma simulação para calcular a possibilidade de contaminação da água do rio Xingu por metais pesados.
  Além disso, cria um calendário para as obras de saneamento, que vai de 24 de maio de 2011 (ações imediatas em Altamira) até junho de 2014 (drenagem urbana em Altamira), e também obriga a empresa a criar um cadastro socioeconômico das pessoas impactadas pela obra e garantir que todos os atingidos sejam cadastrados. O pagamento de indenizações será feito de acordo com esse cadastro.
  23 de Setembro 2008
  Moratória do cultivo da soja é só propaganda
  A moratória da soja na Amazônia, decretada por organizações não-governamentais (ONGs), grandes empresas de grãos e até mesmo pelo movimento ambientalista Greenpeace, não passou de propaganda e de marketing para influenciar consumidores da Europa seduzidos pelo apelo de preservação da floresta. Criada supostamente para frear o desmatamento na região, a moratória é tratada como uma autêntica farsa em relatório que acaba de ser divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Santarém, no oeste do Pará.
  Assinada em outubro de 2006 e ratificada em junho passado, a moratória foi um compromisso assumido pela Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) e suas empresas associadas de não adquirir soja de áreas onde a floresta tivesse sido derrubada. O relatório da CPT diz que, além dos impactos ambientais, o cultivo de soja na Amazônia provoca conflitos sociais e fundiários.
  As famílias dos municípios de Santarém e Prainha, no oeste do Pará, por exemplo, continuam sendo expulsas de suas terras, algumas vezes sob a mira de armas e ameaças de mortes, para dar lugar a empresas que derrubam a floresta para vender a madeira e plantar grãos. O cacique Odair Borari, da aldeia Novo Lugar, situada na Gleba Nova Olinda, sofreu dois atentados por ter denunciado às autoridades públicas a presença de grileiros nas terras indígenas onde vive seu povo. Ele se diz jurado de morte pelos novos barões do campo e seus pistoleiros.
  Pressão
  A produção de soja, ainda de acordo com a CPT, nunca foi interrompida no Pará, porque as mesmas empresas que assinaram o documento continuam expandindo as áreas de plantio. Foi tudo, literalmente, para inglês ver. Resultado: nove comunidades dos municípios de Santarém e Belterra já desapareceram e outras 31 tiveram a população diminuída, correndo também o risco de extinção. A pressão é muito forte.
  Isto acontece porque novas fazendas de soja fecharam estradas comunitárias, impedindo acesso de moradores a vários locais com guaritas e homens armados. O relatório 'Impactos Sociais da Soja' também denuncia a dispersão de agrotóxicos utilizados no plantio da soja com prejuízo à saúde de moradores vizinhos às plantações.
  Impactos
  No documento há uma crítica velada à discussão, com 'viés puramente ambientalista', a respeito do avanço da soja na região, o que teria deixado de lado os impactos socioeconômicos da monocultura do grão sobre as populações dos pólos de Santarém, Paragominas e Redenção. 'A moratória da soja, que foi tão divulgada, não passou de propaganda. Serviu apenas aos interesses dos representantes da soja, que precisavam de um marketing junto aos consumidores da Europa, que ameaçavam boicotar produtos ligados à soja da Amazônia', acusa o relatório.
  Os compradores responsáveis por 94% da soja comercializada pelo País se comprometeram a não comprar grãos produzidos em áreas desmatadas. Na prática, nada disso ocorreu.
  Fonte: Amigos da Terra
 
    11 de Julho 2008
  Saiba quem são os senadores amigos dos grileiros
  Agora é oficial. A vergonhosa medida que premia os grileiros, promovida pelo governo Lula na forma de medida provisória (MP 422), virou lei. O saque do patrimônio público é oficializado por iniciativa do governo Lula e aval do Congresso. O assalto às florestas virou também política pública oficial, sendo que a principal condição para a regularização da grilagem é demonstrar a existência de cultivo.
  Os que serão beneficiados com esta medida, portanto, vão confessar aquilo que nossa legislação qualifica como um crime: ter desmatado florestas públicas. Resta ao Ministério Público enquadrar todos aqueles que venham, com base nesta norma, a ter sua ocupação regularizada.
  A sociedade brasileira deverá guardar os nomes dos que votaram a favor desta medida, assim como daqueles que se opuseram. Que esta lista seja divulgada no Brasil e no mundo, que seja reproduzida em ocasião de todas as eleições vindouras, que se torne um marco para registrar quem defende o patrimônio nacional e quem promove sua dilapidação.
  Veja abaixo quais os senadores que votaram a favor e contra a medida:
 
  Fonte: Amazonia.org.br
 
    1 de Fevereiro 2008
  Brasil é incapaz de preservar a Amazônia, dizem ambientalistas
  O governo federal não tem disposição nem capacidade para conter a devastação da Amazônia, apesar das medidas emergenciais anunciadas na semana passada, segundo especialistas.
  O preço elevado dos produtos agrícolas no mercado mundial estimula agropecuaristas a avançarem sobre a Amazônia em busca de terras baratas e desocupadas, de acordo com ambientalistas. Entre agosto e dezembro de 2007, foram devastados 7.000 quilômetros quadrados de florestas, segundo estimativas do governo, o que representa dois terços da taxa anual.
  Em resposta a esses dados, o governo Lula proibiu a extração de madeira em 36 municípios com taxa elevada de desmatamento e também cortou créditos agrícolas para essas localidades. Anunciou também a proibição do comércio de produtos de áreas desmatadas ilegalmente e o registro obrigatório de todas as propriedades para evitar a ocupação clandestina de terras.
  Na quarta-feira, no entanto, enquanto a ministra do Meio Ambiente sobrevoava áreas de floresta desmatadas na região de Mato Grosso, o presidente Lula minimizava a gravidade da situação."A notícia é preocupante, mas é como se tivesse uma coceira e achasse que é uma doença mais grave", disse Lula a jornalistas em São Paulo. Segundo o presidente, o Brasil pode reverter esse quadro neste ano.
  A ministra, mesmo sob pressão de produtores rurais e agricultores mato-grossenses, disse que os dados apontando aumento da devastação estão corretos. "Vamos agir com sentido de urgência. Neste ano, com maior rigor."
  Entre julho de 2005 e julho de 2007, a taxa de desmatamento caiu em 50 por cento, para voltar a subir no semestre passado.
  "Gota do Oceano"
  Ambientalistas dizem que as novas medidas foram adotadas sem convicção pelo governo, e que algumas podem até aumentar o desmatamento. "É um primeiro passo positivo, mas é só uma gota no oceano", disse Paulo Moutinho, coordenador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Para Roberto Smeraldi, diretor da ONG Amigos da Terra no Brasil, a aplicação de medidas restritivas onde o desmatamento já ocorreu pode levar madeireiros e agropecuaristas para municípios vizinhos e menos devastados.
  "O governo está seguindo o desmatamento em vez de se antecipar a ele. Essas medidas podem jogar lenha na fogueira", disse Smeraldi à Reuters. Ele lembrou que é a terceira vez em quatro anos que o governo promete regularizar os títulos de propriedade, mas desta vez se concentrando em apenas 36 municípios. "Os madeireiros estão comemorando nas cidades que se livraram -- o governo tem um histórico terrível na fiscalização", afirmou.
  Paulo Barreto, pesquisador-sênior do instituto Imazon, que promove o desenvolvimento sustentável da floresta, disse que apenas 2 a 3 por cento das multas impostas a madeireiras ilegais são efetivamente pagas.Críticos dizem que grande parte do governo prefere o desenvolvimento econômico à preservação da Amazônia, e por isso falta apoio a várias das medidas. "Marina é uma voz solitária", disse Barreto.
  Enquanto envia mais soldados e cartógrafos para conter a derrubada de árvores, o governo promove o desmatamento na forma de grandes projetos de infra-estrutura e mineração, e também assentando famílias sem-terra na região, segundo Smeraldi.
  O projeto de uma hidrelétrica no rio Madeira (RO) poderia atrair até 100 mil colonos para a região. "O governo levanta uma bandeira vermelha com a mão esquerda e derruba árvores com a direita", afirmou Smeraldi.
  Lula, os militares e políticos nacionalistas costumam se queixar da interferência estrangeira na Amazônia. O presidente afirmou na quarta-feira que as ONGs (internacionais) "precisam é plantar arvores nos seus países deles".
  Na avaliação de especialistas, os fazendeiros vão continuar derrubando árvores para ter espaço para lavouras e pasto enquanto isso for mais barato do que recuperar a área degradada.
  "O governo e a agricultura precisam lidar com os problemas econômicos subjacentes ao desmatamento, repensar radicalmente sua abordagem para a Amazônia, mesmo que seja por interesse próprio", disse Moutinho.
  Fonte: Amigos da terra
 
    27 de Novembro 2007
  Amazônia volta a sofrer com desmatamento após três anos de baixa
  Após um período de declínio das taxas de desmatamento na Amazônia nos últimos três anos, as derrubadas no local voltam a preocupar o governo federal. A retomada da curva ascendente do desmatamento na região está fazendo com que o governo invista em ações emergenciais de controle, concentradas principalmente no Pará, Mato Grosso e Rondônia.
  Informações obtidas por satélite indicaram que o desmatamento em Mato Grosso teria crescido 107% entre junho e setembro deste ano em comparação ao mesmo período do ano passado.
  Mato Grosso - onde se observou crescimento das derrubadas pelo quarto mês consecutivo - é o Estado com o maior índice de desmatamento. De acordo com o Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD), a devastação alcançou 262 km² na região. Isso representaria um aumento de 245% em relação a julho e um crescimento de 147% em relação a agosto de 2006.
  Além de ações de comando e controle programadas ainda para este ano, o governo pretende fazer um trabalho com os municípios que mais derrubam na Amazônia (cerca de 30) no ano que vem. Entre 2008 e 2010, o ministério quer lançar mecanismos que promovam a exploração sustentada da floresta, exigindo uma participação maior dos poderes estaduais e municipais para controlar a derrubada.
  Dentre os motivos que levaram ao crescimento dos índices de desmatamento nessas regiões estão a seca - que veio neste ano com mais força -, e o aumento no preço das commodities.
 
    24 de Julho 2007
  Projetos comunitários de coleta protegem florestas, diz estudo
  A consolidação de projetos de pequeno porte de coleta de frutas e castanhas é a melhor maneira de ate-nuar a pobreza e proteger a Amazônia e outras florestas tropicais, mas a estratégia costuma ser ignorada pelos governos, mostrou um estudo na segunda-feira.
  As comunidades que coletam produtos naturais geram mais renda de longo prazo que muitos parques nacionais ou grandes madeireiras, disse o levantamento da Organização Internacional de Madeiras Tropicais (ITTO), divulgado numa conferência realizada em Rio Branco, Acre.
  "Quem depende da floresta para obter renda e habitat vai tomar conta dela", disse Andy White, um dos autores do documento. "Precisamos de gente nas florestas."
  O relatório, de 200 páginas, baseia-se em 20 estudos de caso em três continentes, da criação de abelhas na África à fabricação de pauzinhos (hashis) de bambu na China.
  A ITTO, um grupo intergovernamental que promove a conservação e o comércio da madeira tropical, diz que as comunidades que vivem nas florestas têm um "horizonte de tempo maior para a gestão dos recursos" que as grandes madeireiras.
  A gestão comunitária das florestas vem crescendo nos últimos anos, com a descentralização política e o reco-nhecimento de direitos históricos sobre a terra em vários países. Mas esses esforços precisam superar a burocracia, a concorrência das grandes empresas e a indiferença governamental, afirmou o documento.
  No Brasil, as comunidades florestais frequentemente são desalojadas por madeireiros, grandes proprietários de terra e garimpeiros, e muitas não têm infra-estrutura para fazer seus produtos chegarem ao mercado.
  Trabalhadores rurais e líderes indígenas entregaram no domingo uma carta à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, pedindo ao governo que ajude a financiar esse tipo de projeto comunitário nas florestas.
  "Se o governo dedicar uma pequena fração de sua ajuda agrícola à gestão florestal, teria uma revolução na conservação da Amazônia", disse o diretor-executivo da ITTO, Manoel Sobral Filho.
  Fonte: Amigos da Terra - Amazônia Brasileira
 
    12 de Julho 2007
  Amazônia em pé vale muito mais
  Segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Produto Interno Bruto (PIB) da Amazônia gira em torno de R$ 114 bilhões anuais, ou cerca de 6% do PIB brasileiro. Desse total, a atividade agropecuária é responsável por R$ 16,6 bilhões e os produtos e serviços originários da biodiversidade da região respondem por R$ 9 bilhões.
  Os dados foram apresentados por Charles Roland Clement, pesquisador do Departamento de Ciências Agronômicas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), na mesa-redonda “Valor econômico da floresta em pé” durante a 59ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Belém.
  “Temos a maior floresta do mundo, que representa 60% do território nacional e é supostamente considerada o ouro verde do futuro, mas sua biodiversidade contribui em menos de 1% para o PIB brasileiro”, disse Clement. "O Brasil precisa valorizar as novas vocações econômicas e ambientais da floresta amazônica e garantir a manutenção de seus recursos naturais", apontou.
  O pesquisador do Inpa chamou a atenção para a importância da agricultura tradicional – prática essencialmente sustentável em que o pequeno produtor usa tecnologias para recuperar o solo após o cultivo – para o aumento da participação da biodiversidade da floresta no PIB brasileiro. A agricultura tradicional na Amazônia é composta basicamente por frutas exóticas, hortaliças, raízes nativas, plantas medicinais, criação de animais e outros produtos florestais não madeireiros.
  Nesse contexto, destaca-se o açaí (Euterpe oleracea), considerado um produto florestal não madeireiro cujo mercado tem crescido exponencialmente nos últimos anos. A população do Pará, com pouco mais de 7 milhões de habitantes, é a maior consumidora de açaí do mundo. Hoje, de acordo com Clement, são mais de 10 mil quilômetros quadrados de açaizais estrategicamente localizados entre Belém e Macapá, com cadeias de comercialização e exportação muito bem elaboradas, centros de pesquisa e desenvolvimento eficientes e recursos humanos especializados no manejo do fruto.
  “Somente os habitantes de Belém consomem 400 toneladas do fruto por mês, enquanto a soma do consumo dos outros estados brasileiros é de 40 toneladas. O açaí é um fenômeno recente que dificilmente será replicado em outras regiões ou países, devido às condições únicas de plantio no Norte brasileiro”, apontou Clement.
  Para o pesquisador, o açaí, impulsionado pelas exportações a países da Europa e da Ásia, é um bom exemplo de aproveitamento da biodiversidade da Amazônia, sem necessariamente ter que derrubar árvores.
  “Derrubar a floresta não é e não pode ser mais lucrativo do que o desenvolvimento da Amazônia com a floresta em pé. O problema é que não há investimentos suficientes para a agregação de novos valores econômicos à altura da biodiversidade da região”, lamentou.
  Plantas do futuro - Samuel Almeida, pesquisador da Coordenação de Botânica do Museu Paraense Emílio Goeldi (Mpeg), apresentou uma lista de “plantas do futuro”, elaborada em parceria com o Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira (Probio), do MMA. A lista inicial indicou 2.150 espécies florestais não madeireiras com algum tipo de uso econômico, incluindo plantas aromáticas, medicinais, alimentícias, fibrosas e oleaginosas.
  “Fizemos uma ampla triagem para eliminar duplicidade de informações e identificar espécies que não faziam parte da flora amazônica. A lista final, que está disponível no site do Museu Goeldi, é composta por 73 espécies que estão prontas para se tornar oportunidades de negócio”, afirmou. O açaí é uma delas.
  Almeida também apresentou dados da fruticultura no Brasil, que registra uma produção anual de cerca de 36 milhões de toneladas em uma área de 2,3 milhões de hectares. O setor emprega 5,6 milhões de pessoas – 27% da mão-de-obra agrícola nacional – e gera de dois a cinco postos de trabalho na cadeia produtiva por hectare cultivado.
  Os bionegócios na Amazônia também não foram esquecidos. Segundo Almeida, existem atualmente 891 empreendimentos em sete estados da Amazônia, responsáveis por cerca de 1,2 mil produtos e serviços prestados por pequenas e médias empresas, associações de produtores, artesãos e cooperativas, em setores como os de alimentos, fármacos, essências, turismo, artesanato e madeira.
 
    23 de Fevereiro 2007
  Ameaça à Amazônia
  A demanda por soja para a fabricação de biodiesel ameaça acelerar o desmatamento da Amazônia brasileira, segundo afirma reportagem publicada nesta quinta-feira pelo diário espanhol El País.
  A reportagem afirma que dois programas do governo incentivam a expansão da produção de soja: “o programa de produção de biodiesel, considerado pioneiro, e o novo programa de aceleração do crescimento, dirigido à ampliação da infra-estrutura e que supõe a ampliação de portos e rodovias para facilitar o transporte da soja”.
  O jornal reproduz declarações de um ambientalista brasileiro de que o cultivo da soja “está invadindo não somente o cerrado, como já está começando a comer parte da Amazônia, com o agravante de que o monocultivo da soja não só destrói a selva, mas também acaba expulsando comunidades inteiras de agricultores familiares, acrescentando a miséria às populações dessas áreas”.
  A reportagem afirma ainda que “o cultivo da soja pode provocar a contaminação dos rios e do solo por agrotóxicos e fertilizantes e reduz a biodiversidade animal e vegetal”.
  Para o jornal, “o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está entre a cruz e a espada, pois a produção e exportação de soja supõe uma das principais entradas de divisas, enquanto, por outro lado, o Ministério do Meio Ambiente, dirigido pela ministra Marina Silva, já teve vários desencontros com algumas medidas do governo”.
  “Uma das provas da vontade do governo de Lula em seu segundo mandato vai ser a permanência ou não no executivo da ministra Silva, conhecida por sua intransigência em matérias ambientais”, conclui o jornal espanhol.
 
    09 de Janeiro 2007
  INPE prevê clima mais quente e seco na região amazônica em 70 anos
  Segundo novo modelo climático desenvolvido pelo instituto, temperatura na região aumentará e poderá transformar floresta num grande cerrado. O estudo mostra ainda que as temperaturas médias no Brasil aumentaram 0,7º C nos últimos 50 anos.
  A Amazônia ainda vai sofrer muito com as mudanças climáticas que estão em curso. De acordo com os dados do novo modelo climático desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) (divulgado no dia 29 de dezembro pelo jornal Folha de S. Paulo), a região terá em 70 anos um clima mais quente e seco do que o atual, com uma elevação de temperatura de cerca de 6º C. O grande risco, afirma José Marengo, coordenador dos pesquisadores do Inpe no projeto, é de que parte da floresta amazônica se converta em cerrado entre 2071 e 2100. O estudo do Inpe mostra ainda que as temperaturas médias no país aumentaram 0,7 º C nos últimos 50 anos. Os dados serão apresentados ao Ministério do Meio Ambiente em fevereiro.
  "Esse estudo do Inpe comprova o papel de vítima e vilã da floresta amazônica em relação ao aquecimento global", afirma Marcelo Furtado, diretor de campanhas do Greenpeace. "Vítima porque sofre com os impactos do aquecimento global, e vilã porque as queimadas são uma das maiores responsáveis pela emissão de gases do efeito estufa que causam as mudanças climáticas."
  Marengo e o climatologista do Inpe Carlos Nobre, que também participou do estudo, foram entrevistados pelo Greenpeace para o relatório e documentário Mudanças do Clima, Mudanças de Vidas - Como o Aquecimento Global Já Afeta o Brasil, lançado em agosto de 2006. O relatório e o documentário trazem testemunhos de vítimas na Amazônia, Nordeste, região Sul e zona litorânea brasileira. São pessoas que viram suas casas destruídas por causa de ventos ou inundações, perderam suas lavouras e animais por causa de secas, ou foram atingidas por catástrofes climáticas. O relatório e o documentário mostram ainda as relações entre a destruição da maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, e o aquecimento global, e como o desmatamento e as queimadas fazem do Brasil o quarto maior emissor de gás carbônico do planeta.
 
    29 de Novembro 2006
  Fragmentação da Amazônia ameaça árvores de grande porte
  Estudo mostra que isolamento de espécies na maior floresta do mundo pode causar destruição comparável à da Mata Atlântica
  Fragmentação da Amazônia causada pelo desmatamento tem resultado na morte de árvores de forma rápida e surpreendente. Um estudo de 22 anos feito por brasileiros e americanos mostra que a maior floresta tropical do mundo pode perder 80% das espécies de árvores de áreas isoladas em apenas cem anos, e acabar com um destino tão trágico quanto o da destruída Mata Atlântica.
  O levantamento publicado na última edição da revista “PNAS”, publicação semanal da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, é um trabalho de longo prazo que reúne os esforços do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e do Instituto de Pesquisas Tropicais do americano Instituto Smithsonian. É também o maior e mais longo estudo já feito sobre a fragmentação de florestas no mundo.
  A intenção dos pesquisadores nesses 22 anos foi montar um grande banco de dados para fornecer bases para a formulação de políticas públicas ambientais. “Nossa intenção não é fazer lobby pelo fim do desmatamento. Desmatamento zero é utopia. Queremos fornecer os dados para que os responsáveis façam uma gestão ambiental adequada em cima de informações concretas”, explicou Henrique Nascimento, do Inpa, um dos coordenadores do estudo, ao G1.
  O que os cientistas descobriram nessa missão surpreendeu. “Há uma alta taxa de espécies de árvores que morrem rapidamente nos locais que ficam isolados, logo após um desmatamento”, diz o pesquisador. “Quando se abre espaço para um pasto ou para uma plantação, toda uma área externa que não existia passa a existir. Isso causa aumento de temperatura e queda de umidade no local, o que gera ventos mais quentes. Esses ventos vão para a área fragmentada, e as árvores que restaram não sobrevivem”, explica.
  O processo, segundo o estudo, é muito mais rápido do que se esperava. “Espécies que só tinham um ou dois exemplares em uma área que visitamos há 22 anos, hoje desapareceram desse local”, diz o pesquisador. “Esse tempo pode parecer muito para nós, mas para uma árvore, que costuma passar dos séculos de vida, atingindo até mil anos, é muito, muito pouco”, afirma. Segundo ele, se o ritmo da destruição se manter, daqui a cem anos cerca de 80% dessas espécies isoladas estarão extintas de suas áreas de origem.
  Com a morte das espécies frondosas, a área começa a ser gradualmente ocupada por outras, menores, mais fracas, que crescem muito mais rápido e têm um tempo de vida muito menor. Essa troca causa um grande impacto na biodiversidade da floresta. Os primeiros a serem afetados são os organismos que dependiam diretamente das grandes árvores para obter comida e abrigo, como pássaros e morcegos. A partir daí, começa uma reação em cadeia que vai causar impacto em toda as espécies animais e vegetais da área fragmentada. Por fim, as árvores menores absorvem menos carbono, o que pode, também, fortalecer o aquecimento global.
  Segundo Nascimento, quando um local é isolado, muitas das espécies que morrem jamais vão se recuperar no local. “Os animais que carregam as sementes dessas plantas dificilmente vão conseguir sobreviver para atravessar a área desmatada e levá-las de volta até o pedaço fragmentado”, explica.
  Se o tamanho da destruição em um fragmento não assustar, os pesquisadores alertam que, com a quantidade de áreas fragmentadas que a Amazônia tem, rapidamente, isso pode se transformar em uma catástrofe ambiental. “Foi o que aconteceu na Mata Atlântica. E que levou muitas espécies à extinção”, alerta Nascimento.
 
    27 de Julho 2006
  Soja na Amazônia em vias de virar tabu para europeus
  São Paulo – Durante as últimas semanas e como prosseguimento da série de manifestações contra o desmatamento que realizou em Santarém, coração da sojicultura na Amazônia, e do lançamento internacional de um estudo sobre a relação direta entre o crescimento da devastação e a produção do grão na região, a ONG ambientalista Greenpeace esteve ativa na Europa em uma série de negociações com os maiores importadores de soja do continente, como as redes supermercadistas inglesas Waitrose, Marks and Spencer e Asda, a alemã Tegut e a espanhola El Corte Inglês, além das empresas Belgian Alpro, McDonalds, Unilever, Ritter-Sport, e das brasileiras Nutrimental e Vitao Nutrihouse.
  O resultado desta rodada de conversas - e de um incômodo crescente por parte das empresas com a possibilidade de estarem financiando o desmatamento da maior floresta tropical do mundo (e também, segundo Paulo Adário, coordenador do Greenpeace Amazônia, de ter ativistas da ONG acorrentados às suas mesas) - foi o fechamento de um acordo de nove pontos que deveria ser apresentado aos produtores e exportadores de soja amazônica.
  Segundo a proposta do Greenpeace, endossada pelos europeus, Amazônia seria aquele bioma definido pelo IBGE, e todos os produtores de soja nesta área deveriam se sujeitar às demandas dos compradores: para começar, “nenhum novo desmatamento para soja ou outro produto agropecuário será aceito depois de 31 de dezembro de 2005”, política que deveria ser mantida “até que um plano participativo de uso do solo, incluindo todos os atores relevantes, tenha sido acordado. As empresas devem adotar essa moratória já para a safra 2007/2008”.
  Os ambientalistas também estipularam três categorias de produtores para facilitar a identificação por parte dos importadores de grãos: os que estiverem em dia com a legislação ambiental e fundiária – preservação de 80% da cobertura natural na propriedade e documentação válida das terras – estariam na lista verde. Na segunda categoria, a lista amarela, estariam os produtores que desrespeitam o Código Florestal de alguma forma e tem terras irregulares, e que se comprometessem a legalizar sua situação em 10 anos assinando um termo de ajuste de conduta.
  Dentro de dois anos, no entanto, as empresas exportadoras deveriam aceitar como fornecedores apenas os agricultores capazes de provar a legalidade de seus títulos de propriedade. “Aquelas fazendas que não cumpram tais exigências constarão de uma lista vermelha, e as empresas não devem comprar dessas fazendas depois do período de graça de dois anos”.
  Outras demandas dão conta de que todas as empresas “devem assinar e cumprir estritamente o Pacto Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo. Esse compromisso constará dos contratos de compra com fazendeiros, com vigência imediata. Dentro de dois anos, as empresas devem estabelecer sistemas de rastreabilidade de suas cadeias produtivas, incluindo validação e monitoramento realizados por terceiros a fim de garantir controles para a compra de soja”.
  Tudo isso, explica Paulo Adário, seria discutido e regulamentado em uma comissão composta pelas empresas exportadoras, empresas consumidoras e ONGs ambientalistas, além de representantes dos governos federal e estaduais, para que se implementasse um acordo final num prazo de dois anos.
  As pressionadas
  Resultado desse esforço, depois de novas reuniões com o Greenpeace no Brasil e recebido o recado dos compradores europeus, as empresas multinacionais Cargill, ADM, Bunge, Dreyfus e o grupo brasileiro Amaggi, donas do comércio de soja brasileiro, resolveram dar uma resposta que acalmasse os ânimos.
  Em nota divulgada segunda-feira (24), a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) e suas respectivas associadas afirmaram que estariam dispostas a “implantar um programa de governança, que objetiva não comercializar a soja da safra que será plantada a partir de outubro de 2006, oriunda de áreas que forem desflorestadas dentro do Bioma Amazônico, após a data do presente comunicado”.
  Na contramão do que pede o Greenpeace – um acordo por tempo indefinido, até que os problemas de ordem socioambiental sejam solucionados -, as empresas limitam o tempo para dois anos e usam uma terminologia vaga, como “encorajar e sensibilizar os sojicultores a atenderem o disposto no Código Florestal Brasileiro”.
  “Como assim, ‘encorajar’ produtores ilegais a respeitar a lei? Isto é inaceitável, as leis estão ai para serem cumpridas”, reage Adário. Segundo ele, também o prazo de dois anos proposto pelas empresas é sem efeito, já que a cadeia produtiva, começando pelo preparo da área, leva por volta de três, explica o coordenador do Greenpeace.
  De acordo com ele, a reação dos ambientalistas ao comunicado das empresas foi bastante reticente. Mas o que elas não teriam entendido, diz Adário, é que o acordo do Greenpeace com as consumidoras européias não é negociável, no sentido de que a destruição da Amazônia pela soja está começando a se tornar um tabu no exterior.
  Observadores
  Autor do livro “O grão que cresceu demais”, sobre a soja no Brasil, o economista Sérgio Schlesinger, consultor do Projeto Brasil Sustentável e Democrático e da ONG Fase, considera o resultado da campanha do Greenpeace uma vitória moral, já que, há pouco tempo, ninguém falava de soja na Amazônia.
  “Mas é apenas um passo, que abre caminho para lutas maiores. Enquanto for permitido por lei plantar soja na Amazônia, enquanto os Ministérios da Agricultura e da Industria e Comércio apostarem no grão para alavancar a economia do país, os problemas vão persistir”, afirma Schlesinger.
  Segundo o economista, na prática e sobre as comunidades locais o acordo terá pouco impacto, mas nessa questão específica os movimentos sociais ainda não teriam conseguido enfrentar a questão de forma mais efetiva. “Negociar com as empresas é uma mentalidade das grandes ONGs, talvez os movimentos, por sua natureza, teriam sido mais radicais. Mas acredito que a decisão do Greenpeace foi acertada e é preciso aproveitar a visibilidade que ele está dando à questão”.
  Membro da Frente em Defesa da Amazônia e coordenador da Rádio Rural de Santarém, Para, o padre Edilberto Sena, recentemente ameaçado de morte por sua participação na campanha contra a soja no município, concorda com Schlesinger que o acordo foi um passo importante do ponto de vista da publicidade do problema, mas repete as ponderações do próprio Greenpeace: dois anos de moratória oferecidos pelas empresas é irrisório.
  “As empresas exportadoras só aceitaram o acordo pressionadas, mas acredito que ele vai funcionar para diminuir o desmatamento. Mas confesso que estou um pouco preocupado com a minha segurança. Hoje (terça, 25) os sojeiros de Santarém já se reuniram”, conta Edilberto, dizendo temer reações violentas como as que o ameaçaram de morte há menos de um mês. Ele explica que atualmente 80% dos cultivos de soja no município são ilegais do ponto de vista do código Florestal e da titularidade das terras, o que colocaria a maioria dos produtores na lista vermelha do Greenpeace.
  Verena Glass
 
    28 de Outobro 2005
  Documentação da Seca na Amazonia
  Manaus-Careiro, 20.10.05
  Deixamos a marina às 9h, com destino ao lago do Rei, no município de Careiro da Várzea, ao lado de Manaus, para documentar os efeitos da seca na Amazônia. Temos informações de que o lago enfrenta grave estiagem, com morte de peixes e imensas dificuldades para a comunidade local. São duas horas em uma lancha veloz. Depois, seguiremos pelo canal que une as águas do rio Amazonas ao lago.
  Passando pela frente de Manaus já vemos os sinais de que as águas do rio Negro estão realmente baixas. No porto de São Raimundo, por exemplo, operários estão construindo uma extensão da pista que leva os carros à balsa. As águas desceram tanto que o asfalto existente ficou acima. Logo depois, uma balsa que parece ter naufragado há anos está encalhada na areia. Passando pelo centro, os contêineres do porto estão nas alturas. Durante a cheia chegam a ficar quase ao nível da água. O igarapé dos Educandos não desemboca mais no rio Negro e está separado deste por uma larga praia.
  Deixamos a cidade, observando um imenso banco de areia que surgiu no encontro das águas. Alguns quilômetros rio Amazonas abaixo e vemos um presságio do que nos aguarda. Em um banco de areia na margem do rio, um boto vermelho morto é a refeição de meia dúzia de urubus. Difícil afirmar que tenha sido vítima da seca. Entretanto, não é comum encontrarmos botos mortos nos rios e, nos últimos dias, diversos deles têm estado nas páginas dos jornais locais.
  Seguimos para a entrada do canal que leva ao lago. Ali, a comunidade dos Reis espera a vida voltar ao normal. Pescadores olham pelas janelas com olhar perplexo diante do triste espetáculo que assistem há cerca de duas semanas: milhares de peixes mortos descem pela corrente, conforme o lago seca cada vez mais. Os peixes ainda vivos colam suas bocas na superfície ou saltam desesperados para fora d’água, em busca de oxigênio, difícil de encontrar nas águas podres. A pesca, meio de sustento para quase todos aqui, está inviável. “O peixe que não está morto fica com esse cheiro ruim, não presta”, explica o pescador Ednei dos Santos. Não há água potável por perto e o único meio de obter alguma para consumo humano é buscando no meio do rio Amazonas.
  O canal normalmente tem cerca de 20 metros de largura e, durante a época da cheia, as águas extravasam suas margens, alagando uma imensa área de várzea ao redor. As marcas nas casas, lá no alto do barranco, dão conta de que a água chega até perto dos telhados nas piores enchentes. Agora, o leito não tem mais de cinco metros entre as margens e a navegação só é possível por um raso e estreito canal. De acordo com os moradores, as águas ainda baixam cerca de 5 centímetros por dia.
  Às margens, centenas de urubus se fartam no banquete da morte, sem precisar de qualquer esforço. Aqui tem peixe morto pra escolher. O cheiro de podridão se espalha por toda parte, provocando náuseas. Depois de alguns minutos a vontade de vomitar passa. O odor fétido, não.
  Nossas lanchas não podem entrar mais que 20 metros no canal, sob o risco de atolar. Alugamos duas canoas com motor de rabeta, como chamam aqui um motor de eixo bem comprido, com a hélice a cerca de um metro de distância do motor, geralmente de 5,5 Hp (as lanchas mais velozes têm 40 ou 60 Hp). Os irmãos Ednei, Edvaldo, Fábio e Francinei são os condutores. Seguimos pelo canal estreito. Às vezes algum dos irmãos tem de descer da canoa para empurrá-la no leito de poucos centímetros de profundidade.
  As imagens que vemos nas próximas horas vão ficar gravadas para sempre na memória. São centenas, milhares de peixes mortos passando a nosso lado sem cessar. Há espécies e tamanhos variados. No fundo do leito ficaram troncos e galhos que dificultam a navegação. Sobre eles, às vezes pendurados, peixes secos pelo sol escaldante. Na lama da beira, os últimos sobreviventes saltam buscando a vida. Nas curvas do canal, os galhos retêm centenas de peixes podres. Ao longo das margens, ininterruptamente, os urubus seguem se banqueteando dos mortos. Em alguns poucos pontos, centenas de garças caçam os vivos. Os irmãos pescadores têm apenas uma certeza: quando as águas voltarem, os peixes não estarão no lago. O alimento, há poucos dias abundante, se tornará escasso. A vida não voltará facilmente ao normal.
  Trovoadas anunciam uma chuva que não vem. A noite começa a cair. O percurso torna-se cada vez mais difícil. Decidimos voltar, certos de que vimos e vivemos uma experiência quase indescritível. No retorno, a escuridão torna os troncos pelo caminho ainda mais traiçoeiros. Chegamos à vila de noite. Não há luz, pois os moradores não têm acesso à eletricidade. Para nós, essa é a maior ironia de todas. Os que podem vir a ser os maiores prejudicados pelo aquecimento global sequer têm acesso ao benefício básico da queima de carbono: a energia.
  Fonte: Greenpeace Brazil
 
    22 de Setembro 2005
  Fumaça de incêndios na floresta suspendeu as operações de pouso e decolagem no aeroporto de Cruzeiro do Sul
  Em um mês houve um aumento de 400% nos focos de queimadas no Estado do Amazonas. De 9 de agosto a 9 de setembro de 2005, o Sipam registrou 1976 incêndios. No mesmo período do ano passado, o satélite havia registrado 407 áreas com fogo. Isso tem provocado o isolamento por via aérea de vários municípios da região Sul, bem como em Cruzeiro do Sul, no Acre. Lábrea, Apuí, Boca do Acre, Manicoré, Novo Aripuanã, Canutama, Guajará, Envira, Humaitá e Tabatinga, pontualmente, sofrem com densas cortinas de fumaça, que comprometem a aterrissagem de aviões.
  Os dez municípios no Amazonas com maiores focos de queimada e atingidos pela fumaça reúnem uma população de 240.747, segundo dados projetados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para este ano. Por estar no período das vazantes dos rios Madeira, Purus e do alto Juruá, este último registra uma das maiores secas dos últimos sessenta anos, o grau de isolamento tem aumentado, pois os barcos, com freqüência, encalham nos bancos de areia.
  O chefe da fiscalização do Ibama, Adilson Cordeiro, disse que a situação das queimadas no Estado deve se agravar em decorrência da baixa umidade do ar. O especialista destacou ainda que a seca dos rios, como os da calha do Madeira e do Juruá, preocupam, pois estão em áreas de florestas densas que estão sendo atacadas pelos fazendeiros na formação de pastos e na retirada da madeira. Ele frisa ainda que no momento não há um alerta vermelho de incêndio de grandes proporções, como houve no mês passado, mas que é só uma questão de tempo. "Estamos preocupados".
  As empresas de transporte aéreo também podem sofrer mais prejuízos ao longo do verão. Isso deve acontecer na região, porque os focos de queimadas no Amazonas cresceram 400% e estão aumentando em relação ao ano passado. Os dados dos satélites que mapeam a floresta Amazônica estão sendo analisados pela equipe de especialistas do Serviço de Proteção da Amazônia (Sipam).
 
    29 de Agosto 2005
  Desmatamento 2004 - 2005
  Desmatamento 2004-2005 atinge aproximadamente 16 mil km2, de acordo com o Imazon A taxa anual de desmatamento para o período de agosto de 2004 a julho de 2005 deve ficar entre 15.247 e 16.570 km2 (valores mínimo e máximo), com uma estimativa média de 15.909 km2. Trata-se de dados fornecidos pelo sistema DETER, do INPE, baseados nos levantamentos do satélite MODIS e processados pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). A projeção representa uma possível diminuição de mais de um terço (aproximadamente 10 mil km2) em relação ao desmatamento do período 2003-2004. Quase 92% desta redução teria ocorrido em apenas em um mês: junho. Para esse mês, foi projetada uma taxa de 835 km2 desmatados em 2005, frente aos 10.017 km2 de junho de 2004. Nos demais onze meses do ano (isto é no período agosto-maio e no mês de julho), teria sido desmatada praticamente a mesma área do ano anterior, ou seja, aproximadamente 15 mil km2.
  A taxa projetada assume como variável que os desmatamentos não identificados pelo DETER (áreas inferiores a 25 hectares) representem 18% do total detectado, média do que ocorreu nos anos entre 2000 e 2004. Já as áreas de desmatamento não detectadas em razão de cobertura de nuvens foram avaliadas em 2%. Dessa forma, o Imazon avalia que é possível comparar esta taxa com a taxa tradicionalmente obtida com base no sistema PRODES (satélite LANDSAT), que será divulgada apenas no começo do ano que vem. O Instituto não divulgou, até o momento, os dados por estado.
  De acordo com Roberto Smeraldi, diretor de Amigos da Terra - Amazônia Brasileira, o índice ainda é alarmante, apesar da redução. "Este ano foi caracterizado pela queda abrupta nos preços das commodities, pela valorização em mais de 20% do real, por taxas de juros além de 19%, por um endividamento sem precedentes do setor agropecuário (mais de 30 bilhões) e pela ausência de qualquer investimento de porte em infraestrutura na região. Se, nessas condições, ainda se consegue desmatar 16 mil km2, significa que são necessárias mudanças profundas para frear um fenômeno que não depende mais apenas dos atores econômicos."
  Hegemonia Mato-grossense
  A Casa Civil divulgou hoje outros números para o desmatamento na Amazônia, baseado nos mesmos dados do DETER. Sem a projeção do Imazon e com um mês a menos, o levantamento traz a estimativa total de 9.105 km2 desmatados nos últimos onze meses. Sobre a diferença entre os dados, leia mais em Entenda a diferença nas estimativas divulgadas pelo MMA e pelo Imazon.
  Segundo este relatório, Mato Grosso continua a ser o estado que mais desmata a floresta amazônica brasileira. Dos 30 municípios que mais desmataram a floresta, 23 são do Mato Grosso. Também são mato-grossenes os seis únicos municípios onde houve aumento da área desmatada: Juara, Feliz Natal, Peixoto de Azevedo, União do Sul, Paranatinga e Matupá. Os cinco municípios que mais desmataram foram: Juara, Nova Ubiratã, São Félix do Xingu, Tapurah e Nova Maringá. Apenas São Félix do Xingu (PA), não fica no Mato Grosso.
 
    7 de Junho 2005
  Ibama vai 'cortar na própria carne', diz Marina Silva
  BRASÍLIA - Em um discurso duro, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou ontem que a apuração do esquema de corrupção envolvendo funcionários do Ibama, políticos do PT mato-grossense e madeireiras será apurado até o fim, ainda que isso signifique "cortar a própria carne" do governo e do PT. Ela disse que a Operação Curupira, deflagrada na semana passada pela Polícia Federal, "cortou a cabeça" do esquema de extração ilegal de madeira, mas deixou claro não ter ilusões que o problema esteja resolvido. Marina comparou o esquema à Hidra de Lerna - na mitologia grega, uma serpente de nove cabeças com quem Hércules se bateu. A cada cabeça decepada pelo herói, nasciam mais duas.
  O presidente nacional do PT, José Genoino, informou que serão abertos processos internos para expulsar do partido os políticos envolvidos no esquema. "Não vamos defender o patrimônio da pureza. Não estou dizendo que todos (petistas) são puros. Por isso, o PT parte para a ofensiva e combate a corrupção. Vamos aplicar o estatuto do partido", afirmou.
  CONTEMPLAÇÃO
  "Não há nenhum tipo de contemplação", disse a ministra, durante as comemorações do Dia do Meio Ambiente no Parque da Cidade, em Brasília.
  Na Operação Curupira, 40 funcionários de carreira foram afastados e 21 deles ocupavam cargos de confiança ao longo de vários governos. Mas entre as pessoas presas estavam integrantes do PT, como o ex-gerente-executivo do Ibama em Mato Grosso, Hugo José Werle, que arrecadaria verbas junto a madeireiras para a campanha do candidato do PT à prefeitura de Cuiabá em 2004, Alexandre Cesar.
  "A minha responsabilidade como ministra do Meio Ambiente era de extirpar o tumor, em quem quer que seja. A responsabilidade de punir essas pessoas fica a cargo do PT de Mato Grosso", afirmou. Marina fez questão de enfatizar que tomou medidas contra a corrupção agindo como ministra e não representando o Partido dos Trabalhadores, ao qual é filiada. "Eu sou uma ministra de Estado e fiz o meu dever. Os dirigentes partidários saberão fazer o seu."
  Segundo ela, o PT não tem medo de ir a fundo no combate à corrupção. "O PT fez isso por dentro da administração pública e tenho certeza de que fará isso no Mato Grosso dentro da estrutura partidária." Marina disse ainda que é o mau caráter, e não os partidos, que faz com que as pessoas sejam corruptas. "Existem pessoas honestas no PT, no PSDB e em todos os partidos", afirmou.
  A ministra defendeu o financiamento público de campanhas eleitorais como forma de acabar com as contribuições de empresas para as eleições de políticos, mas lamentou que o projeto esteja parado há tantos anos no Congresso.
  O Secretário de Desenvolvimento Sustentável do Ministério do Meio Ambiente, Gilney Vianna, ex-deputado federal pelo PT de Mato Grosso, também defende o financiamento público. Ele disse que, como ambientalista, sempre evitou contribuições de madeireiras, mas reconheceu que, no Estado, quando uma campanha atinge proporções maiores, como uma eleição para prefeito, é praticamente inevitável captar recursos de empresas que extraem madeira.
  Vianna disse duvidar que Alexandre Cesar tenha recebido dinheiro de madeireiras, mas afirmou que já há algum tempo pesavam desconfianças sobre Hugo Werle. "Hoje ele está preso", comentou. "É uma pena, pois era alguém nosso agindo contra a política ambiental."
  PREDATÓRIAS
  "Tenho absoluta certeza de que esse sistema criminoso, que funcionava há mais de 14 anos, agora teve a sua cabeça cortada", avaliou Marina Silva. "Mas nós sabemos que, quando você machuca a cabeça da serpente, ela balança o rabo violentamente." As pressões contrárias à investigação, porém, serão rechaçadas, segundo prometeu a ministra. "Eu nunca me iludo com a primeira cabeça (da Hidra)."
  A ministra disse que o desmatamento na Amazônia não é resultado apenas da corrupção e que tem de ser avaliado como um sistema criminoso que opera prejudicando aqueles que querem desenvolver as atividades produtivas sustentáveis. "Existe uma concepção de que a Amazônia é um espaço onde pode se fazer o que bem entende. É essa concepção que sustenta o sistema de corrupção e de atividades predatórias."
  Fonte: Amigos da Terra
 
    30 de Maio 2005
  Na calha norte do Amazonas, nasce uma frente de devastação
  Crescimento de atividades de exploração, como derrubadas e queimadas, alerta para um novo foco de desmatamento
  ÓBIDOS (PA) - Longe do grosso do desmatamento na Amazônia Legal, a região conhecida como calha norte do Amazonas - formada pelos Estados de Roraima e Amapá, além do norte do Amazonas e do Pará - apresenta sinais de aumento de atividades exploratórias. Ainda que nem façam sombra ao índice de derrubada registrado em outras partes do bioma, principalmente no sul da Amazônia, madeireiros, grileiros e produtores de soja começam a se instalar na área. As queimadas formam um colar de focos de calor, atingindo principalmente Roraima e Amapá - Estado que já percebeu um aumento da taxa de desmatamento, a despeito de possuir mais de 50% de seu território em unidades de conservação. Clareiras se proliferam e pontuam o que antes era um íntegro cobertor verde.
  Moradores e líderes locais afirmam que a ação se intensificou nos últimos anos, sem conseguirem detalhar causas específicas. "É uma experiência empírica que deve ser levada em conta pelos governos, já que podem dar pistas de um desmatamento ainda pequeno, mas que é sentido pela população local", afirma o coordenador do laboratório de geoprocessamento do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Arnaldo Carneiro Filho.
  No início do mês, a Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou uma pesquisa em que 27 municípios da calha norte haviam se queixado do problema, no que chamou de uma espécie de "arco do desmatamento e das queimadas norte", uma referência ao já conhecido e denominado arco sul, uma faixa que se estende pelo leste e pelo sul da Amazônia.
  ESCALA AMAZÔNICA
  O analista ambiental do IBGE Judicael Clevelario Junior admite que o problema "ainda não é uma grande questão" quando comparada a áreas críticas, como a Terra do Meio, no sul do Pará, e Mato Grosso, que responde por quase a metade da derrubada de árvores da Amazônia. Contudo, ele acredita que existe uma nova frente na região. "É bom abrir o olho."
  Já o engenheiro florestal Adalberto Veríssimo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), acredita ser um "equívoco" chamar a ação na área de "novo arco", pois não existe um desmatamento contínuo na região.
  Quando as ações que ocorrem na região são colocadas no grande quadro amazônico, a calha norte é ainda considerada uma área pouco modificada pela ação do homem. "Na escala da Amazônia, isso não representa nem 1%. É claro que constitui uma área enorme em números absolutos, mas 80% do desmatamento do bioma se concentram em outras regiões", afirma Veríssimo.
  De acordo com o secretário estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas, Virgílio Viana, o mapeamento do IBGE tem de ser levado em conta, mas "sem alarde", uma vez que o foco atual é o sul do Estado. "Ele tem o valor de antecipar um problema que está ocorrendo em pequena escala e temos de combater", diz o secretário. O Estado mostrou uma redução de 39% na taxa de desmatamento, de 1.734 para 1.054 quilômetros quadrados.
  Manaus e outros municípios nas proximidades, como Iranduba, Manacapuru, Anamã, São Sebastião do Uatumã e Urucará, consideraram os arredores de suas cidades desmatadas. Em Rio Preto da Eva, um estudo do Inpa, coordenada pelo cientista Welton Oda, aponta uma elevação dos casos de leishmaniose - o segundo maior índice da doença no Estado. O protozoário que provoca o mal é transmitido pelos mosquitos flebotomídeos, que perdem seu hábitat com os desmatamentos.
  A ação preventiva na área é tão pouco representativa para os órgãos competentes que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que há dez dias divulgou o balanço preliminar do desmatamento no período 2003-2004, não computou os dados de Roraima e Amapá. Segundo o instituto, as áreas abertas nos dois Estados não são suficientes para mudar de forma significativa os números finais, divulgados em 26.130 quilômetros quadrados.
  RODOVIAS E SIDERÚRGICAS
  Contudo, no Amapá as áreas desmatadas praticamente dobraram no período de 1998 a 2002, de acordo com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Em 1998, o Estado mantinha praticamente intactos 99% de sua cobertura vegetal. Em 2002, foram detectados 263 mil hectares de devastação, o que equivale a 1,84%. O desmatamento está concentrado ao longo das duas rodovias federais: a BR-156, que liga Macapá ao município de Oiapoque, no extremo norte; e a Perimetral Norte, ou BR-210, que corta de leste a oeste toda a calha norte do Amazonas. O temor da secretaria é que o problema cresça nessa mesma taxa.
  Outra preocupação da pasta é a construção de siderúrgicas, que demandam grande quantidade de carvão vegetal. A Sólida Mineração, por exemplo, já anunciou para agosto a entrada em funcionamento de um forno que vai produzir 500 toneladas por dia de ferro-gusa. Engenheiros florestais, agrônomos, geólogos e ambientalistas dizem que os órgãos ambientais do Amapá não estão preparados para encarar simultaneamente os problemas decorrentes de novas siderúrgicas, empresas de agronegócios e madeireiras e da transferência das terras da União para o Estado.
  Em Roraima, boa parte do corte de matas é decorrente das culturas de soja e de arroz, que têm aumentado significativamente mais ao norte, a partir de Boa Vista, onde ocorre uma "ilha" de cerrado no meio da floresta. Mas, no sul do Estado, o investimento mais intenso é dirigido ao gado - o governo estima que Roraima tenha, atualmente, um rebanho de 400 mil reses. Para a associação dos criadores, o número tende a aumentar, uma vez que o clima e a geografia plana do solo são favoráveis à criação dos animais.
  EM ETAPAS
  Tradicionalmente, o desmatamento tem início com a ação de madeireiros, como explica o engenheiro Alcione Carvalho Cavalcante, diretor da Associação dos Engenheiros Florestais do Amapá. "As rodovias são o fator de maior estímulo ao acesso de recursos naturais. No primeiro momento chegam os madeireiros para coletar as madeiras de maior valor, como o ipê. Logo atrás vêm os produtores rurais, que se instalam nas áreas a partir de estradas de serviços abertas pelos madeireiros e pressionam o poder público a melhorá-las, o que vai possibilitar para eles a extração de madeiras de menor valor, como cupiúba e louro."
  No norte do Pará, alguns madeireiros passaram essa responsabilidade para os produtores de soja, especialmente de Mato Grosso - aos quais chamam de "sulistas" de forma generalizada, uma referência aos migrantes da Região Sul que povoaram o Estado atrás de terras para plantio.
  Esses produtores começaram a testar o solo da região norte para expandir a agricultura. Um madeireiro da região de Santarém, que pediu que não fosse identificado, diz que os "sojeiros" não sabem o valor da madeira e queimam as toras indiscriminadamente, em pilhas que chegam a 50 metros.
  SATÉLITES
  Outros relatam que os grileiros que já agiam na calha sul do Amazonas têm aplicado uma "grilagem tecnológica" na região. Com aparelhos de posicionamento por satélite (o GPS), imagens de satélites (as mesmas usadas pelo governo e pelas organizações não-governamentais para mapear o desmatamento) e pequenos aviões, eles procuram áreas interessantes para invadir.
  "Eles fazem todo tipo de pressão", afirma a presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais de Santarém, Maria Ivete Bastos. Ameaçada de morte, ela também responde a dois processos sob acusação de pretender invadir terras de um empresário paraense - intenção que ela nega, mesmo que a área em questão, segundo ela, esteja em situação irregular.
  Há algumas semanas, uma ação conjunta do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), da Polícia Federal e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) foi deslocada para Óbidos, no Pará, na calha norte do Amazonas, para verificar denúncias de grilagem no assentamento Cruzeirão.
  Segundo relatos de famílias do local, um grileiro havia comprado terras de assentados, além de ter expulsado algumas famílias, para reunir e desmatar 10 mil quilômetros quadrados. Quando o grupo chegou ao local, não havia ninguém nem nada: todas as árvores já haviam sido derrubadas e queimadas. O grileiro não foi localizado.
  Cristina Amorim, Alcinéa Cavalcante, Liége Albuquerque e Zequinha Neto
  
  15 de Decembro 2004
  O Inventário brasileiro de emissões de gases de efeito estufa e o desmatamento da Amazônia
  Autor: Paulo Moutinho
  O Brasil acaba de tornar público na última quarta feira, 9 de dezembro, o seu inventário de emissões de gases de efeito estufa para o período de 1990-1994. Cumpre assim o Artigo 4 da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Seu principal resultado indica que o grosso das emissões brasileiras (70%) foi resultado do desmatamento de nossas florestas.
  Embora já pudesse ter sido divulgado há um bom tempo, o inventário vem em boa hora e demonstra um passo importante do país frente às negociações internacionais sobre o clima. Também, é preciso reconhecer que o inventário é de excelente qualidade e representa o esforço dos melhores cientistas e técnicos do país. Certamente, um modelo de inventário a ser seguido por outros países, incluindo os desenvolvidos. No entanto, é preciso lembrar que o inventário representa apenas uma fração das emissões atuais. Em 1994, por exemplo, a taxa de desmatamento na Amazônia girou em torno de 14.000 km2. Em 2004, o valor estimado supera os 24.000 km2. A emissão por queima de combustíveis fósseis no país também aumentou (cerca de 30%). Portanto, a situação atual é pior do que aquela revelada pelos números do atual levantamento. O inventário também revela o perfil invertido das emissões brasileiras em relação à de outros grandes países em desenvolvimento, como China e Índia, dois ferozes consumidores de combustíveis fósseis. A conclusão lógica resultante da análise do inventário seria, então, que o Brasil, um país que detém uma matriz energética relativamente limpa, para contribuir efetivamente para a mitigação das mudanças do clima, deveria promover reduções significativas do desmatamento. Os incentivos para isto no âmbito do Protocolo de Quioto, contudo, não existem. Somente o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo abre oportunidades no campo florestal, permitindo projetos de plantio de árvores (seqüestro de carbono). Estes, contudo, podem não gerar grandes benefícios que o país espera. Com custos de implantação elevados e o longo tempo necessário para capturar o carbono (isto é, o tempo necessário para a floresta crescer), tais projetos parecem não gerar muito ânimo nos investidores. Para que efetivos benefícios oriundos do mercado de carbono fossem transferidos para o Brasil, um novo mecanismo envolvendo florestas nativas e redução de desmatamento teria que ser elaborado e aceito pela comunidade internacional e pelo próprio Brasil. Um possível mecanismo tem sido proposto pelo IPAM. Chamado de “redução compensada de desmatamento” foi pela primeira vez apresentado na COP9, realizada no ano passado em Milão. Basicamente, a proposta prevê que países em desenvolvimento que detêm estoques de florestas tropicais (Amazônia no nosso caso) poderiam receber estímulos para reduzir desmatamento através de uma compensação econômica por parte dos países desenvolvidos. De maneira geral, tal compensação seria calculada tomando por base as médias anuais de desmatamento havidas durante os anos 80. Os países em desenvolvimento que se dispusessem e conseguissem promover reduções das suas emissões oriundas de desmatamento durante os cinco anos, por exemplo, do primeiro período de compromisso (2008-2012), receberiam compensação financeira internacional correspondente às emissões evitadas, conforme o valor médio do carbono no mercado durante o ano de 2012.
  Medidas como esta deveriam ser adotadas politicamente pelo governo brasileiro e defendidas internacionalmente como uma forma pragmática de controle de emissões de gases do efeito estufa oriundas do desmatamento tropical por países em desenvolvimento e donos de grandes extensões de florestas. Sem compensação econômica para manter floresta em pé, é possível que os resultados do próximo inventário continuem proporcionalmente os mesmos.
 
    23 de Novembro 2004
  Soja: o Átila moderno
  A história recente da diminuição de parques estaduais em Mato Grosso é escandalosa. Em apenas dois anos, três parques estaduais importantes foram e estão sendo drasticamente mutilados em suas extensões territoriais originais, para dar lugar a mais plantios de soja. Estes não são, lamentavelmente, fatos novos na história do Brasil. Mas, ao contrário de outros casos anteriores, justificados pela presença de índios (Parque Nacional do Araguaia) ou pela necessidade de energia (Parque Nacional de Sete Quedas), neste caso não parece existir nenhuma imperiosa "razão de Estado" que justifique as reduções. O que há, para um ataque tão violento como rápido contra o patrimônio dos mato-grossenses, é a ambição fora de controle dos novos coronéis da soja.
  O mais recente causo é o do Parque Serra de Ricardo Franco, que deverá ser amputado em 100.000 hectares para dar lugar às atividades econômicas (leia-se soja) de 50 proprietários rurais que estão em seu interior. Este Parque foi criado em 1997 com 158.000 hectares e o argumento para sua redução é que "o governo não tem dinheiro para indenizar os proprietários rurais que estão inseridos na proposta original". Claro que o argumento é econômico. De uma parte é uma vergonha que esses proprietários não tenham sido indenizados. Mas de outra, esse mesmo fato resulta de uma economia míope, que só vê o presente e não mede os benefícios econômicos e sociais de longo prazo, nem mede tampouco os benefícios indiretos e os serviços ambientais fornecidos por uma área protegida. Menos, ainda, medem os custos sociais e ambientais da soja, em comparação com aqueles mencionados. Por esse critério, mais da metade das unidades de conservação do Brasil deveriam ser extintas.
  Evidentemente, para executar este novo atentado ambiental, o Governo se ampara numa consulta pública. Esta foi realizada na terça feira, dia 9 de novembro, no município de Vila Bela da Santíssima Trindade, a 550 km de Cuiabá. O pessoal da região e as autoridades municipais, devidamente adestradas, adoraram a proposta. O prefeito de Vila Bela saiu com essa: "Nós somos favoráveis ao Parque, desde que não esteja em áreas produtivas". Ô, cara pálida: primeiramente a biodiversidade não entende o jargão de "terra produtiva" e, segundo, com a moderna tecnologia e os transgênicos, onde estão essas áreas não produtivas? Ele tampouco se importa que seu município vá perder anualmente 156 mil reais pelo conceito de ICMS ecológico. Claro, para ele o que interessa é plantar mais soja. Possivelmente ele mesmo o faça, pois está deixando o cargo dentro em pouco.
  O governo estadual oferece uma barganha: diminui o Parque em 100.000 hectares e cria uma APA de 70.000 hectares. Aqueles que não estão familiarizados com todos estes termos e categorias podem até pensar que o negócio da barganha não é tão ruim. Mas em um Parque o uso direto dos recursos naturais é proibido e a terra tem de pertencer ao Poder Público. Assim, nesta categoria a proteção da biodiversidade é total. Já em uma APA, a terra é de domínio privado em geral e se pode usar diretamente os recursos naturais. Pode-se inclusive plantar soja, que é o que eles querem. É sob o ponto de vista ambientalista um péssimo negócio, isso sim.
  Bem, mas o causo do Parque Estadual da Serra de Ricardo Franco não é isolado em Mato Grosso. Um decreto do Legislativo já pretendeu diminuir o Parque Estadual do Xingu de 135.000 hectares para 94.000 hectares. Digo pretendeu pois há uma querela jurídica em torno do assunto, isto é, se um decreto do Legislativo tem mesmo ou não, perante a nossa Constituição, o poder de diminuir uma unidade de conservação. Claro que na prática o estupro já foi cometido. O Parque Estadual do Xingu foi criado em 2001 e seu decreto de redução é de 2003. Antes se pensava que os Parques eram museus vivos para o uso da ciência e que eram para sempre. Agora duram poucos anos... O decreto é de autoria do deputado Riva, o mesmo que já propusera anteriormente a redução do Parque da Serra de Ricardo Franco. Pode-se falar tudo deste deputado, mas que ele não trabalha, não. O cara vive preparando projetos de decretos legislativos para acabar com os Parques de seu estado.
  Como se não bastassem os fatos acima, há outros. Tramitou no Tribunal de Justiça de Mato Grosso o mandado de Segurança para cancelamento do decreto de criação do Parque Estadual Igarapés do Juruena, com área de 222.000 hectares, em uma ação aparentemente movida por madeireiros, pois a área é rica em madeira de lei. E o Legislativo aprovou por unanimidade decreto que tornou sem efeito o ato de criação deste Parque.
  Mesmo sabendo que o Estado de Mato Grosso é o que mais queima e arrasa os recursos naturais no Brasil, cabe perguntar: o que vem depois, se nem as unidades de conservação sobrevivem? Os plantadores de soja que tanto dinheiro ganham e as autoridades constituídas deveriam, isso sim, pensar de forma mais moderna e serem os primeiros a proteger parcelas dos magníficos biomas que o estado abrange, senão como uma compensação pelo tanto que destroem, pelo menos para justificar o seu orgulho de ter uma natureza exuberante, com o Pantanal, Cerrado e Amazônia. Ou será que o Rei da Soja quer, de verdade, ser lembrado como um Átila - "Depois de mim, só a soja"?
  Maria Tereza Jorge Pádua Fundadora da Funatura, membro do Conselho da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza e da comissão mundial de Parques Nacionais da UICN.
  
  17 de Novembro 2004
  Braga acha impossível conter fronteira agrícola, mas quer evitar processo 'irracional, predatório, devastador'
  O Amazonas, com uma área de 157.782.000 hectares, é o maior Estado brasileiro. Suas dimensões são maiores que as de qualquer país da América Latina. Abrange sozinho um terço da região amazônica, sendo sua porção mais protegida, com menos de 3% de áreas desmatadas. O atual governador, Eduardo Braga, do PPS, acredita que é possível manter esse nível de conservação e ao mesmo tempo estimular a atividade econômica. No momento a ameaça ecológica mais iminente é o avanço da soja na região de campos, no sul do Estado.
  Para Braga, o avanço daquela fronteira agrícola, a exemplo do que aconteceu em Estados vizinhos, é inevitável. "Mas não pode acontecer de forma irracional e predatória", diz Braga. "Vamos intervir para preservar o ecossistema dos campos naturais, que os agricultores querem para a soja."
  Uma das estratégias do governo é a ampliação de áreas protegidas. Isso não significa apenas o crescimento de territórios que devem permanecer intocados. Várias das novas áreas de proteção são habitadas por populações extrativistas e ribeirinhas - expressão que se usa para designar os grupos que vivem ao lado da água e dependem dela para viver: "Essas populações têm protegido vastas extensões da Amazônia por gerações. É preciso melhorar suas condições de vida."
  Manejo
  Desenvolvimento sustentável é a expressão chave de seu discurso. "Não se trata apenas de proibir o corte de árvores. Muitos que dependem disso para sobreviver acabam indo para a ilegalidade e destruindo mais ainda a floresta. Estamos estimulando o manejo de florestas, rios e lagos; incentivando cada uma das diferentes regiões do Estado a explorar de forma adequada seus potenciais. Estamos falando de um choque cultural. Pode levar tempo para dar resultado, mas vai dar."
  No caso do gasoduto, o governador acha que pode servir para levar mais benefícios à população ribeirinha: "Não vamos só ver a riqueza passar por aqui."
  Na opinião dele o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido bom para seu Estado. Cita como exemplo a prorrogação dos incentivos da Zona Franca de Manaus e o próprio gasoduto - que só teria saído do papel com o empurrão federal.
  Hidroavião
  Braga chegou de avião a Anamã. Foi saudado por rojões e os aplausos de um grupo de quase 150 pessoas. Todas vestiam camisetas nas cores azul e vermelha (as cores dos grupos Garantido e Caprichoso, do Festival do Boi-Bumbá, da cidade de Parintins), com o nome do governador estampado na frente.
  A equipe que chegou um dia antes à cidade com a missão de enfeitar a praça para o casamento também espalhou faixas com parabenizações a Braga pela sua visita. Durante a cerimônia noturna, uma faixa bem iluminada e estendida no prédio vizinho dizia: "Zona Franca Verde e governador Eduardo Braga - um caso de amor com o interior."
  Nos discursos que precederam a cerimônia, os oradores se dirigiram mais a Braga do que aos noivos. Segundo o secretário estadual de Trabalho e Cidadania, a celebração marcava "o casamento do governador com povo humilde".
  A exceção foi o juiz que casou os noivos. Fez um discurso só para eles: "Para os que já têm uma experiência de vida em comum, sejam felizes! Aos que começam agora, um alerta: vai ser difícil. Sejam tolerantes uns com os outros. Resolvam seus desentendimentos com conversas. Não discutam com a cabeça quente."
  Também foi o juiz quem disse aos noivos que podiam se beijar. Foi atendido de forma discreta.
  Fonte: Amazonas Em Tempo, Patrícia Almeida
  
  28 de Setembro 2004
  Desmatamento muda clima da Amazônia
  Aumento de temperatura e dos ventos, além de diminuição da evapotranspiração, são alguns impactos do desmatamento e do fogo no clima da Amazônia e em outras regiões do País, segundo estudo apresentado ontem, pelo coordenador de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), Antônio Manzi (foto). A pesquisa foi exibida no auditório do minicampus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), e representa um apanhado de estudos feitos durante duas décadas por instituições de pesquisa brasileiras e de outros países.
  “Comparações de modelos de clima de floresta e de pastagem revelam um aumento de temperatura próximo da superfície de 1ºC a 2ºC. Mas o que existe de mais interessante é a ocorrência de um aumento grande na amplitude térmica do dia”, diz.
  O estudo é realizado a partir da comparação de modelos matemáticos de computador que simulam a circulação atmosférica e o comportamento da vegetação da floresta. Os modelos de floresta são substituídos por modelos de áreas desmatadas, e o impacto dessas mudanças são simulados. “A partir daí podemos verificar as mudanças climáticas”, diz.
  Segundo o pesquisador, normalmente esses modelos prevêem aumento de temperatura, diminuição da evapotranspiração e aumento dos ventos. Ele ressalta que esse aumento dos ventos não está relacionado aos problemas ocorridos no conjunto Nova Cidade, onde centenas de casas têm sido destelhadas por ventanias nos últimos meses. “Estamos falando de efeitos locais”, observa.
  A maioria dos modelos também reproduz diminuição das chuvas na Amazônia. No entanto, essa diminuição não ocorre de forma homogênea. “Diminuem as chuvas da área leste da Amazônia, enquanto no lado oeste, ocorre aumento da quantidade de chuva”, diz.
  Outro resultado importante foi a identificação de diminuição da evaporação da superfície, em áreas desmatadas. “Essa diminuição está em grande parte associada a profundidade das raízes. No caso da floresta, a vegetação tem raízes profundas, então existe um acesso a camada de solo com uma quantidade de água muito maior que o de uma pastagem”, explica.
  Ciclos
  A menor quantidade de água que evapora reduz o ciclo hidrológico. “Não temos percebido implicações no regime de chuvas, mas a longo prazo isso pode significar menos água nos igarapés”, avalia.
  Pesquisas do Experimento de Grande Escala da Biosfera e Atmosfera na Amazônia (LBA) verificaram o impacto das queimadas na região. “Esses estudos demonstram que as queimadas podem levar a um atraso no início da estação chuvosa da Amazônia. Além disso, a fumaça viaja a longas distâncias, podendo diminuir as chuvas até no Rio Grande do Sul”, afirma.
  Manzi ressalta que existem possibilidade de erros na comparação dos modelos de computadores. “Esses modelos em sua maioria têm dificuldades de simular corretamente a climatologia de precipitação na Amazônia, normalmente produzem um pouco menos de chuva do que se observa na realidade”, ressalta.
  No entanto, acrescenta o pesquisador, os modelos simulam muito bem todos os ciclos e a variabilidade de um ano para outro. “A cada dia esses modelos são aprimorados para que os resultados sejam mais exatos”, diz.
  Fonte: Amazonas Em Tempo, Patrícia Almeida
  
  10 de Agosto 2004
  Amazônia perde plantas medicinais e conhecimento
  O avanço das motosserras floresta adentro na Amazônia não só derruba árvores. Com as plantas, se perde o conhecimento sobre elas, principalmente as que têm propriedades medicinais. A constatação é de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que compararam dois estudos, um feito em 1984 e outro em 2001, sobre o uso de plantas medicinais, em especial as usadas contra a malária, pela população do sul do Pará.
  Segundo Maria das Graças Lins Brandão, da Faculdade de Farmácia da UFMG, uma das autoras dos dois estudos, com o desmatamento o Brasil perde uma riqueza da qual nem se conhece ao certo a dimensão. "Além da riqueza material, nosso trabalho demonstrou que estamos perdendo a própria cultura, ou seja, o conhecimento sobre as plantas medicinais", diz. "Para nós foi incrível e horrível constatar que, em tão curto prazo, a população daquela área amazônica, especialmente São Félix do Xingu (PA), não conhece mais as plantas medicinais da região."
  Maria das Graças conta que a intenção dela e dos colegas era coletar mais dados e amostras das plantas que foram ativas contra a malária em 1984, para retomar as pesquisas. "Mas não havia mais nada", diz. "Quando as plantas desaparecem, não se pode mais usá-las, e o conhecimento tradicional cai no esquecimento. As gerações posteriores não aprendem sobre suas propriedades."
  Isso pode ser visto na região estudada pelos pesquisadores mineiros. A maior parte das plantas medicinais vendidas lá hoje é importada de outras regiões.
  É caso da arnica (Lychnophora sp.), usada como antiinflamatório e cicatrizante, coletada em Goiás. Também de fora, no caso de Minas, chegam a salsaparrilha (Herreria sp.), empregada no tratamento de pele, a douradinha (Waltheria sp.), um diurético, e a congonha (Rudgea viburnoides), diurética e anti-hipertensiva.
  Ameaças - O desmatamento e o extrativismo são tão intensos que algumas espécies já correm risco de extinção. O caso mais marcante é o do jaborandi (Pilocarpus sp), do qual se obtém a policarpina, usada contra glaucoma. De certa forma, se repete na Amazônia o que houve em outros Estados. "O progresso desordenado e a destruição das florestas levou ao desaparecimento de muitas plantas medicinais", diz Maria das Graças.
  Para agravar a situação, muitas das que restam são pesquisadas em outros países. "É cada vez maior o interesse pelas plantas medicinais nativas do Brasil, especialmente por parte de empresas de outros países, que processam e utilizam", escreveram Maria das Graças e colegas, num artigo publicado na edição de julho da revista Ciência Hoje, da SBPC.
  Eles citam o composto alfa-bisabolol e a rutina. O primeiro é um antiinflamatório, obtido do óleo de candeia (Eremanthus erytropappus) e usado em cosméticos. A segunda, das favas da favela (Dimorphandra sp.), fortalece os vasos sanguíneos. As duas são extraídas e purificadas por empresas brasileiras, mas exportadas. "Ambas são mais aproveitadas no exterior", diz. "A rutina está entre os 10 principais farmoquímicos exportados pelo Brasil, segundo a Associação Brasileira da Indústria Farmoquímica (Abiquif)."
  Seja como for, a esses dois produtos pelo menos é agregado valor antes da exportação. Não é o caso da maioria das substâncias, exportadas brutas.
  Evanildo da Silveira
  
  23 de Julho 2004
  Mundo deve pagar conta da preservação da Amazônia, diz 'Economist'
  O mundo deve deixar de apenas falar e começar a ajudar o Brasil a pagar a conta da conservação da floresta amazônica, afirma em editorial a revista britânica The Economist desta semana.
  A revista diz que países tropicais, e em geral mais pobres, devem ter o direito de se beneficiar economicamente por meio de algum tipo de deflorestamento.
  "Os Estados Unidos e a Europa derrubaram a maioria de suas florestas nos últimos séculos. Quem são eles para dizer à Indonésia, ao Brasil e ao Congo para fazer o contrário?", indaga o editorial.
  "Mas o desflorestamento que é ideal para o Brasil provavelmente será maior que aquele que serviria para a humanidade como um todo. Assim, faz sentido encontrar maneiras de tornar a manutenção da floresta tão recompensadora ao Brasil quanto ao mundo."
  O texto, então, afirma: "Quando os cálculos forem feitos, o mundo deve pagar a sua parte da conta".
  BR-163
  A publicação que chega às bancas nesta sexta-feira traz na capa o título "Saving the Forest" (Salvando a Floresta) e uma extensa reportagem sobre o projeto de melhorias na BR-163 (que liga Cuiabá a Santarém) e as conseqüentes ameaças ambientais do projeto.
  Segundo a Economist, o desenvolvimento da estrada trará muitos benefícios para a economia brasileira, facilitando o transporte e o escoamento de produtos agrícolas para a exportação.
  O projeto, porém, "poderia desmatar de 30% a 40% da Amazônia até 2020, de acordo com uma estimativa".
  O texto afirma que o governo federal está agindo para conter a devastação florestal que poderia resultar da nova estrada. Afirma que 15 ministérios estudam "cada possível consequência do projeto".
  Por outro lado, a reportagem aponta a fragilidade dos órgãos responsáveis pela fiscalização do desmatamento em Estados do Centro-Oeste e do Norte, como o Incra e o Ibama.
  Para a publicação britânica, "o milagre seria uma estrada que promovesse o crescimento do Brasil protegendo ao mesmo tempo a indispensável Amazônia".
  
  23 de Novembro 2002
  Ministro visita Xapuri, onde assina concessões para seringueiros
  O ministro do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho e o presidente do Ibama, Rômulo Fernandes Mello, assinam amanhã, quinta-feira, em Xapuri, os primeiros contratos de Concessão de Direito Real de Uso nas Reservas Extrativistas Chico Mendes e Alto Juruá. O documento vai permitir aos moradores do local obter concessões para exploração real como beneficiário da área, além de financiamentos em bancos para produção agrícola.
  O evento será realizado na Reserva Chico Mendes, no Seringal Floresta, onde aproximadamente 500 pessoas entre moradores, autoridades locais, o ministro do MAM José Carlos, o presidente do Ibama Rômulo Fernandes Mello e a gerente regional, Idelcleide Rodrigues, estarão presentes, segundo perspectivas do Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentado das Populações Tradicionais, CNPT.
  Na prática, as concessões vão diminuir o processo burocrático que exige atualmente dos moradores da reserva à apresentação de uma declaração emitida pelo Ibama para todas as ações realizadas pelos moradores. O Ibama é o órgão detentor da posse e administração das reservas.
  De acordo com informações do chefe do CNPT no Acre, Josemar Caminha, no total, 11.100 moradores vivem nas duas reservas e serão contemplados com as concessões, sendo 7.500 pessoas da Reserva Extrativista Chico Mendes e 3.600 do Alto Juruá. Todas as reservas do país receberão as Concessões de Direito Real de Uso. A assinatura em Xapuri celebra, no entanto, o início do processo.
  Reservas - As reservas extrativistas foram criadas a partir da mobilização organizada de seringueiros, em Xapuri, na década de 80. O movimento tomou força com os seringueiros se colocando contrários ao modelo de desenvolvimento definido pelo governo federal que objetivava a implantação de projetos agroflorestais, de mineração, madeireiros e agropecuários cujos resultados geraram conflitos violentos, êxodo das populações tradicionais e até mortes.
  Os seringueiros e castanheiros passaram a resistir a essas mudanças e expulsão, unindo-se em sindicatos rurais, organizando os chamados empates. Com isso, estava iniciado um dos processos de conquista de autonomia dos seringueiros na região do Vale do Acre, que abrange os municípios de Xapuri, Brasiléia, Rio Branco, Assis Brasil e parte de Sena Madureira.
  A permanência na floresta exigia um modelo de ocupação que respeitasse a distribuição natural das espécies e que permitisse assentamentos extrativistas. Em 1990, o governo federal decretou a criação das duas reservas. A programação da visita está sendo montada em sintonia pelas assessorias no Ministério do Meio Ambiente, em Brasília e na gerência regional do Ibama em Rio Branco.
  Diva Albuquerque
  
  12 de Agosto 2002
  FHC LANÇA PROGRAMA DESTINADO A RECUPERAR ÁREAS DE MATA ATLÂNTICA
  O presidente Fernando Henrique Cardoso reuniu-se nesta segunda-feira com os ministros do Desenvolvimento Agrário, José Abrão, e do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, no Palácio do Planalto, em Brasília (DF). No encontro, o presidente lançou o Pronaf Florestal, programa destinado a recuperar as áreas degradadas na região da Mata Atlântica, com investimentos de créditos da ordem de R$ 120 milhões anuais.
  Segundo cálculos do governo, os recursos, que serão liberados nos próximos cinco anos, irão beneficiar 10 mil agricultores já em 2002 e mais 20 mil produtores rurais a cada ano seguinte. As ações vão estimular a recuperação de áreas de preservação ambiental e estimular empreendimentos não agressivos ao meio ambiente, gerando ocupação e renda familiar inicialmente nas áreas de mata atlântica - que hoje se limitam a 7% do que já ocupou do território brasileiro.
  RECURSOS DE R$ 300 MILHÕES PARA OS PRÓXIMOS 5 ANOS
  O Pronaf Florestal vai disponibilizar, nos próximos cinco anos, cerca de R$ 300 milhões para os agricultores familiares investirem na preservação da Mata Atlântica. Segundo o ministro do Desenvolvimento Agrário, José Abrão, os recursos para 2002 e 2003 já estão garantidos pelo Governo. Questionado se a mudança no comando do país poderia prejudicar a continuidade do programa, Abrão disse que acredita que, seja qual for o novo governo, as verbas serão mantidas. "Eu espero que nenhum governo reduza esse valor, e não há razão para isso", afirmou.
  O ministro José Abrão disse que o objetivo central do governo com o novo programa é mudar a idéia de que o pequeno agricultor brasileiro é inimigo do meio ambiente e de que a preservação das florestas inviabiliza a atividade agrícola no país. Terão direito a obter os recursos do Pronaf Florestal agricultores familiares enquadrados nos grupos C e D do Pronaf - incluindo proprietários, posseiros, arrendatários ou parceiros, que tenham pelo menos 80% da renda familiar oriunda da exploração agropecuária e não agropecuária do estabelecimento. Os financiamentos são de R$ 6 mil para os agricultores com renda anual de até R$ 30 mil e de R$ 4 mil para aqueles com renda anual de até R$ 10 mil. Até 40% do valor do crédito para fase de implantação e plantio poderão ser liberados no primeiro ano. Os juros são de 4% ao ano, com bônus de adimplência de 25% para cada parcela paga em dia. São considerados também beneficiários pescadores artesanais, extrativistas e aquicultores com até dois hectares de lâmina d'água ou tanques-redes de até 500 metros cúbicos.
  IMPLANTAÇÃO DOS PROJETOS
  Para implantação dos projetos e a regularização ambiental dos estabelecimentos, os agricultores familiares contarão com serviços específicos de assistência técnica, garantida durante o tempo necessário à fase de implantação do projeto. Os serviços serão contratados inicialmente por meio de edital específico do FNMA - Fundo Nacional do Meio Ambiente, aberto a ONGs e empresas públicas estaduais e municipais, com parceria de universidades, fundações, associações, cooperativas de agricultores e empresas do setor florestal. Entre as ações previstas pelo Pronaf Florestal, está a instalação de fossas sépticas nos estabelecimentos. O objetivo é melhorar a qualidade de vida da população, bem como a preservação do meio ambiente. A construção estará sob a responsabilidade do Ministério do Meio Ambiente.
  O ministro do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, lembrou que, até agora, todas as ações de governo para evitar o desmatamento estavam baseadas no mecanismo de comando e controle, principalmente fiscalização. "A grande novidade agora é que, pela primeira vez, estamos trabalhando de maneira concreta um programa de reflorestamento associado à recuperação da Mata Atlântica, com recursos claramente assegurados", afirmou. O ministro José Abrão, do Desenvolvimento Agrário, destacou o caráter inovador do Programa, que, entre outras vantagens para o trabalhador rural, " oferece condições excepcionais de crédito".
  USO RESPONSÁVEL DOS RECURSOS NATURAIS
  O ministro do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, avaliou que o Pronaf Florestal corrige uma série de deformações existentes na legislação brasileira que acabavam por desestimular os agricultores a preservar o meio ambiente. Segundo Carvalho, todas as políticas de crédito voltadas para o setor agropecuário desde as décadas de 60 e 70 deixavam uma lacuna que financiava, indiretamente, o desmatamento no país. Agora, na avaliação de Carvalho, será possível estimular com recursos econômicos o uso responsável dos recursos naturais. "É um novo ciclo da política ambiental brasileira", resumiu. O ministro ainda explicou que o prazo de carência para o pagamento dos financiamentos do Pronaf Florestal foi definido de acordo com o primeiro ciclo de corte da floresta, que é de sete anos. Assim, o governo fixou o prazo mínimo para o início do pagamento em oito anos.
 
    Veja, 17 de novembro de 2000
  Até onde a Amazônia pode resistir?
  Pesquisas mostram que a ação do homem pode degradar até 95% da floresta em vinte anos e como fenômenos climáticos complicam esse quadro.
  Do Descobrimento até o final da década de 70, apenas 4% de toda a Amazônia havia sido devastada. Isso corresponde a arrancar menos que um gomo de uma laranja. Nos últimos vinte anos, já se foram mais dois gomos. Hoje, a área desmatada da floresta equivale à de um país como a França. Essa ainda seria uma situação confortável se o futuro não prometesse coisa muito pior. Caso nada seja feito para estancar a destruição, daqui a apenas vinte anos poderão restar somente 28% de mata virgem na Amazônia, na hipótese mais benigna, ou ainda menos – 4,7% –, a se confirmarem as hipóteses mais pessimistas levantadas pelo grupo de cientistas liderado pelo biólogo americano William Laurance, pesquisador do Smithsonian Tropical Research Institute, um dos centros de pesquisa da prestigiosa Smithsonian Institution dos Estados Unidos, e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus.
  Laurance, de 43 anos, criou um modelo de previsão matemática do desmatamento com base nas obras construídas na Amazônia. Ele é autor de mais de cinqüenta artigos e de dois livros sobre a região e vive em Manaus há cinco anos. Metido em bermudas largas, camisas pólo e sandálias, é capaz de passar horas sobre um pequeno computador portátil redigindo seus textos e fazendo cálculos. Com sua fórmula, o cientista projetou quanto pode ser destruído em volta de cada nova obra planejada no programa Avança Brasil, que começou a ser implementado pelo governo em janeiro deste ano. O que ele analisa, no fundo, é a medida da ocupação humana na maior reserva florestal contínua do planeta, uma região que abriga quinze vezes mais espécies de peixes que todos os rios europeus, guarda 20% da água potável do mundo e tem a maior linhagem de aves, primatas, roedores, jacarés, sapos, insetos e lagartos da Terra.
  No meio dessa biodiversidade, o governo planeja pavimentar ou construir 8.000 quilômetros de estradas. Até 2007, devem estar operando mais de uma dezena de portos e quatro aeroportos novos ou ampliados, dois gasodutos, três usinas termelétricas, toda a segunda etapa da hidrelétrica de Tucuruí, mais a de Belo Monte, no Rio Xingu, e as hidrovias Araguaia–Tocantins (2.250 quilômetros) e do Madeira (1 056 quilômetros), além de milhares de quilômetros de linhas de transmissão de energia e de um novo trecho de 1.400 quilômetros da Ferrovia Norte–Sul. Em oito anos, a região terá recebido quase 40 bilhões de reais em investimentos.
  No passado, a implantação de projetos dessa magnitude criou situações que podem ser medidas com precisão – e é dessas medições que parte a projeção sombria de Laurance. Alguns dos piores resultados da ocupação podem ser vistos às margens de rodovias como a Belém–Brasília, aberta nos anos 60, e a PA-150, o corredor da madeira no leste do Pará. Um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) mediu a devastação provocada por essas duas rodovias, mais a da BR-364, que liga Cuiabá a Porto Velho, todas construídas nas últimas três décadas. Ao longo da Belém–Brasília, 55% da vegetação foi derrubada numa faixa de 50 quilômetros de cada lado da estrada. Às margens da PA-150, o índice ficou em 40% e, para a Cuiabá–Porto Velho, em 33%. O trabalho do Ipam concluiu ainda que dois terços do desmatamento total da Amazônia ocorreram nas vizinhanças de rodovias.
  Nas projeções do biólogo William Laurance, às margens de uma estrada como a Cuiabá–Santarém, aberta nos anos 70 e cuja pavimentação está prevista no Avança Brasil, o desmatamento pode espalhar-se por até 200 quilômetros lateralmente ao asfalto. No caso das hidrelétricas, o avanço sobre a mata alcança uma extensão de até 25 quilômetros a partir das bordas dos reservatórios. Considerando o potencial de devastação de cada obra, a equipe projetou os totais desmatados. Para montar o cenário otimista, definiu-se a possibilidade de preservação de todas as reservas já existentes na Amazônia, florestais e indígenas. Na hipótese pessimista, calcula-se que os limites não serão respeitados em reservas à margem das estradas, por exemplo. O estudo conclui que as obras do Avança Brasil poderão incrementar em até um quarto os 20.000 quilômetros quadrados devastados todos os anos na floresta, totalizando uma superfície maior do que a do Estado de Sergipe podada a cada ano.
  "É como permitir que se corte ao meio um bolo que antes era comido pelas bordas", diz Laurance, ao tratar da ação humana sobre a floresta. Ele se refere sobretudo à atividade das madeireiras, as pioneiras no avanço sobre a mata. O fenômeno da penetração seguindo a estrada como uma faca que vai separando nacos da região já pode ser observado no oeste do Pará, no entorno da BR-163, que liga a capital de Mato Grosso a Santarém. O esgotamento de antigos pólos madeireiros em outras regiões faz com que serrarias migrem dessas áreas para as margens da rodovia. Embora a estrada tenha sido aberta na década de 70 e permaneça sem pavimentação num trecho de mais de 1.000 quilômetros, quase impossível de transpor na época das chuvas, as madeireiras avançam em direção ao "meio do bolo". Ali existe um corredor de escoamento – precário, mas há –, e por ele milhares de metros cúbicos de espécies de alto valor comercial, como o ipê e o cedro, seguem para o sul ou sobem para o Porto de Santarém, para exportação. "A Cuiabá–Santarém é a verdadeira estrada da integração nacional", diz Edgar Antônio Brandt, presidente do Sindicato dos Madeireiros do Sudoeste do Pará, em Novo Progresso.
  Esse município e a localidade de Moraes de Almeida, 100 quilômetros ao norte, concentram o mais novo pólo madeireiro da Amazônia. No final de 1997, não havia nem quinze serrarias instaladas por lá. Até o fim deste ano serão mais de 100. Em toda a rodovia, 150. Elas comem pelo menos 75.000 hectares de floresta por ano. Cerca de 1,5 milhão de metros cúbicos de madeira – com a qual se pode lotar mais de uma centena de navios – são retirados anualmente de lugares onde três anos atrás não se cortava uma única tora. Em 1995, Novo Progresso contava com 6.000 habitantes. Hoje tem 24.000. A vizinha Moraes de Almeida viveu o auge da produção de ouro, na década de 80, com 2.000 habitantes, escolas, hospitais, posto policial e até agência bancária. Quando o metal acabou, dez anos atrás, chegou a ter só 26 moradores. Agora, retomou o tamanho original. Como associa a chegada das madeireiras com progresso, a população das duas cidades se une aos destruidores da mata para reivindicar o asfaltamento da Cuiabá–Santarém. "Seria a realização de um sonho", afirma o prefeito de Novo Progresso, Juscelino Alves Rodrigues, do PSDB. O sindicato dos madeireiros calcula que, com o asfalto, o custo do frete da madeira, de 140 reais por metro cúbico, cairia quase à metade, tornando a região mais competitiva para esse tipo de comércio.
  A ação destrutiva começa com a retirada da madeira. Em seguida, os madeireiros partem para uma área nova, e a terra arrasada que deixam para trás se transforma em local de plantação ou pastagem para gado. Pelas experiências do passado, sabe-se que o ciclo de aproveitamento da mata por esse modelo dura de vinte a 25 anos, gerando prosperidade e crescimento. Depois, vem a decadência. Ambientalistas acreditam que o asfalto é um meio de acelerar esse processo e que o governo deveria estudar mais o impacto de um programa como o Avança Brasil antes de iniciá-lo. Em Brasília, o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, afirma que os projetos previstos para a Amazônia podem ser revistos, se ficar demonstrado que prejudicarão a floresta. Diz Sarney Filho que o BNDES tem 800.000 reais para a elaboração de um relatório de impacto ambiental sobre esses planos. "Dependendo do resultado, o Avança Brasil pode até ser modificado", garante o ministro. Os brasileiros devem ouvir declarações como essa com muita desconfiança. Governo após governo, Brasília sempre optou por projetos desmiolados para a Amazônia. Nunca, até hoje, o bom senso prevaleceu. Preferiu-se sempre uma aparência de movimentação e de progresso, à custa do meio ambiente.
  "Não dá para imaginar a instalação de uma redoma sobre a floresta, condenando populações locais ao abandono", diz José Paulo Silveira, secretário de Planejamento e Investimentos Estratégicos do Ministério do Planejamento, responsável pelo Avança Brasil. "A ocupação é inevitável e, portanto, é melhor que seja planejada." Para entender esse raciocínio, deve-se ter em mente que existem 19 milhões de brasileiros vivendo nos nove Estados da Amazônia Legal, a maior parte deles precisando de médico, dentista, mantimento e até democracia – coisas que hoje custam a chegar por trilhas e barcos. Já há exemplos de estudos e de atividades na Amazônia que podem dar emprego e dignidade a essa gente, sem destruição. Pesquisadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), sediado em Belém, concluíram que a atividade madeireira é a grande vocação da região, que tem 83% de sua área imprestável para a agricultura ou a pecuária. O queparece um contra-senso – ambientalistas defendendo madeireiros – pode servir para demonstrar que, dependendo da maneira como é feita, a atividade das serrarias ajuda a preservar, em vez de devastar. Basta que se adote em larga escala o chamado manejo florestal, que consiste em selecionar as árvores a ser cortadas, retirá-las com o menor dano possível aos exemplares em volta e depois dar tempo para que aquela área da floresta se regenere. Ao contrário do que se costuma imaginar, não é nem o caso de plantar novas árvores. Basta deixar de pé os espécimes mais jovens e, dependendo do tipo de árvore, preservar alguns exemplares adultos, para gerar novas sementes. Essa atividade madeireira, que alia progresso econômico com preservação da natureza, exige, no entanto, um zelo formidável do poder público na tarefa de dar a permissão para o abate de árvores e fiscalizar ferozmente o cumprimento das regras de regeneração pelos empresários madeireiros. Do jeito que a coisa está, as madeireiras só destroem.
  A pedido do Ministério do Meio Ambiente, o Imazon produziu outro relatório, em que identifica áreas públicas com potencial para a criação de florestas nacionais. Nessas áreas, nas quais já estão demarcadas florestas que somam 83.000 quilômetros quadrados, é permitida a exploração planejada de recursos naturais. Elas são arrendadas a terceiros mediante concorrência pública, e a retirada de árvores obedece a um planejamento, com fiscalização posterior do uso dessas áreas para evitar a destruição da natureza. Planeja-se chegar a 500.000 quilômetros quadrados – ou 10% da área total da Amazônia Legal. O Imazon calcula que com mais 200.000 quilômetros quadrados seria possível produzir o mesmo volume de madeira retirado hoje da região. "A criação de florestas controladas nas áreas para onde a indústria madeireira tende a se instalar é essencial para assegurar o manejo nessas novas fronteiras", diz o estudo. Como se vê, preservar não é tão difícil. Basta que a autoridade pública substitua a retórica pelo desejo efetivo de evitar a destruição do maior tesouro vegetal do planeta. O Fundo Mundial para a Natureza, uma organização preservacionista, estima em 500 bilhões de dólares o volume de dinheiro a ser tirado da exploração econômica de espécies selvagens. O Brasil entra nesse cálculo com 8% da madeira explorada no mundo, quase toda ilegalmente.
  Para o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, a preservação da Amazônia passa necessariamente por esse tipo de mudança na exploração dos recursos da floresta. Não se trata de proibir o acesso à riqueza natural, condenando os habitantes da área à falta de assistência. Trata-se, isso sim, de criar condições para a exploração racional e a fiscalização implacável. Isso foi o que não se viu até agora. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a quem cabe zelar pela preservação e pelo uso racional dos recursos naturais, tem hoje menos de 200 homens nessa função na Amazônia. Mesmo diante das lições do passado, Sarney Filho rejeita as previsões catastrofistas sobre a infra-estrutura que será levada à selva nos próximos anos. Acha que será possível conciliar progresso e preservação do meio ambiente. "O governo está muito atento à questão ambiental", diz o ministro. O Brasil reza para que ele esteja certo e tenha os meios de realizar sua profecia.
  Pode ser que o ministro tenha razão e a catástrofe não ocorra, mas com a Amazônia sempre é necessário cuidado. Todas as experiências anteriores de ocupação resultaram em fiasco. No auge da exploração da borracha, era tamanha a riqueza dos empresários do látex que eles se vestiam como ingleses e estouravam garrafas de champanhe francês em Manaus com a naturalidade de quem abre latinhas de cerveja. Atualmente, falta até água limpa na capital do Estado do Amazonas, que é banhada pelos rios Negro e Solimões, dois gigantes. Quando o bilionário americano Daniel Ludwig começou seu sonho de fazer no Amapá uma superfábrica de polpa de papel, há três décadas, pescava-se o gigantesco pirarucu na periferia de Manaus. Agora, é necessário entrar 200 quilômetros mata adentro para pegar um exemplar de bom tamanho. O grande projeto de rasgar a floresta com a Transamazônica acabou num lamaçal rapidamente reabsorvido pela selva. As colônias criadas em Rondônia transformaram o Estado numa imensa capoeira.
  Hoje se sabe que o que parece uma indestrutível massa vegetal plantada sobre rios imemoriais é, na verdade, um frágil sistema sujeito a se desintegrar diante do menor abalo. Se toda a história da Terra durasse um ano, a vida da selva seria de um segundo. Há 80 milhões de anos, a floresta era um braço de mar. Depois foi um pântano por longo período e se tornou um cerrado, até mais ou menos 1 milhão de anos atrás. Não é pequeno o risco de que, numa próxima etapa, a mata ceda lugar a um descampado. A própria situação climática tem demonstrado esse perigo.
  O fenômeno El Niño – conhecido há mais de vinte anos, porém imprevisível – age na costa do Peru, do outro lado da Cordilheira dos Andes, mas repercute na Amazônia com secas prolongadas. Ele aumenta em até 4 graus centígrados a temperatura da água do Pacífico. Uma massa de ar aquecido eleva-se naquela região e acaba descendo do lado de cá, sobre a floresta brasileira. A estiagem, numa época em que o tempo deveria ser úmido, multiplica os incêndios. E o calor de cada incêndio mata árvores que estarão ressequidas na queimada seguinte, o que cria mais matéria-prima para o fogo. Acreditava-se até agora que os danos decorrentes do El Niño seriam menores com a redução das queimadas. Neste ano, por exemplo, o governo federal e o de Mato Grosso formaram brigadas de fiscais e conseguiram reduzir pela metade o total de focos de incêndio no Estado em relação ao ano passado.
  Só que esse efeito do El Niño é apenas o visível, o que acontece na superfície. Embaixo da floresta, no meio do entrelaçamento de raízes que vão a 20 metros de profundidade para capturar nutrientes, essa seca causa danos cumulativos. A água armazenada no solo não volta aos níveis normais com a próxima estação chuvosa e a mata fica mais sujeita à destruição. O fogo é o grande risco. Todos esses complicadores do El Niño vêm sendo estudados e descritos pelo americano Daniel Nepstad, do Centro de Pesquisa Woods Hole (WHRC), de Massachusetts, nos Estados Unidos, e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), entidade com sede em Belém. Nepstad, um biólogo de 42 anos doutorado pela Universidade de Yale, soma quase uma década de estudos na região e realiza um experimento dentro da Floresta Nacional do Tapajós, próxima à cidade paraense de Santarém. Ele cobriu 1 hectare de mata, área equivalente a um quarteirão, com 6.000 painéis de plástico dispostos horizontalmente a 1,5 metro do chão. Eles impedem que a chuva chegue ao solo, ao coletar a água e despejá-la a uma distância de 200 metros, por um sistema de calhas.
  O processo simula a ação de um mega El Niño, deixando as raízes das árvores sem água. Computadores, aparelhos de medição instalados na vegetação e enormes buracos ao pé de algumas plantas completam o cenário. Ao lado do experimento, outro hectare de mata – sem a cobertura plástica – serve para comparação. Entre outras descobertas, Nepstad registrou que algumas árvores se defendem da seca estendendo suas raízes a até 50 metros do tronco, lateralmente, em busca de umidade. "Queremos saber quanto tempo esse pedaço de floresta agüenta até se tornar inflamável e, eventualmente, cair em pedaços com a mortalidade de árvores", diz ele. As árvores perdem folhas e isso é fatal, porque elas criam uma camada de material inflamável no chão, ao mesmo tempo que o sol alcança o solo e os troncos. Um lugar antes escuro e úmido torna-se quente e seco. Isso facilita tanto o incêndio ateado pelo homem quanto o fogo provocado naturalmente pela ação de raios.
  Pelo lado da ação do homem, há alternativas para a exploração da Amazônia que não implicam devastação. A pesca esportiva, incipiente na área, reúne 35 milhões de adeptos no mundo e movimenta 38 bilhões de dólares por ano. Já se conhece um método de criação em cativeiro de pirarucu pelo qual cada exemplar leva metade do tempo normal para chegar ao peso de abate – mas a piscicultura não é largamente explorada. O ecoturismo gera 200.000 empregos só nos Estados Unidos e faz girar 260 bilhões de dólares por ano no mundo – menos de 0,05% disso na Amazônia. O Brasil está atrasado em todas essas frentes, assim como está longe de encontrar o modo racional de explorar reservas minerais enterradas na região e avaliadas em 1 trilhão de dólares. Só o projeto das florestas nacionais é pouco para conter a ameaça de devastação prevista nas pesquisas da equipe do biólogo William Laurance. Mesmo que os números que ele aponta possam ser piores que a realidade, eles indicam um perigo muito grave. Esperar para comprovar na prática que o cientista pode estar errado não é uma aposta confortável.